Arquivo de Entrevista



Quando o primeiro trailer para Homem-Aranha: Longe de Casa estreou na internet no início desse ano, o ator Jake Gyllenhaal roubou o show como Mysterio, o vilão que usa um capacete de aquário e faz sua estreia na mais recente parcela da franquia.

Enquanto Gyllenhaal é um nome familiar, tendo atuado em uma série de clássicos cults – de Donnie Darko a Brokeback Mountain e Okja – sua primeira tentativa no Universo Cinematográfico da Marvel provavelmente o levará ao estrelato global quando o filme for lançado nos cinemas de todo o mundo em julho.

Quando nos encontramos, Gyllenhaal tinha acabado de finalizar um período de dois meses interpretando um de seus papéis mais exigentes, em Sea Wall/A life, uma produção teatral com cenas que estavam muito longe de Homem- Aranha e suas cenas de ação e efeitos especiais.

A peça, que será reprisada esse verão na Broadway após uma temporada bem-sucedida no Public Theater, em Nova York, apresenta dois monólogos, um com Jake Gyllenhaal e o outro com Tom Sturridge. O papel exigiu que Gyllenhaal ficasse sozinho no palco por quase uma hora, discorrendo sobre questões de vida, morte e amor, e muito foco e resistência. “Eu estava com muito medo de fazer isso por muitos meses… e eu acordava no meio da noite antes de fazer o show, pensando que eu não deveria fazê-lo e que deveria cancelar, mas então eu assisti ao documentário Free Solo,” diz Gyllenhaal, que está falando no Ritz Hotel em Paris como embaixador da marca Cartier.

“É tudo sobre prática e disciplina, e ser dedicado ao que você está fazendo e como você pode chegar lá […] não importa o que seja, se você está escalando sem cordas – o que é extraordinário – ou se você está fazendo um monólogo ou tentando fazer um teste. Então eu disse, ‘Eu posso fazer isso’ e me concentrei e fiz.”

O fato de Gyllenhaal conseguir alternar com facilidade entre um blockbuster que será visto por milhões, um monólogo dramático na Broadway, e filmes independentes mostram sua versatilidade e amplo alcance.

Filho de um pai diretor e de uma mãe roteirista, Gyllenhaal cresceu na indústria cinematográfica e fez sua estreia na televisão em 1991 na comédia City Slickers, ao lado de Billy Crystal. Sua irmã mais velha, Maggie, é uma atriz de sucesso (os irmãos estrelaram juntos em Donnie Darko), e embora Gyllenhaal nunca tenha se estabelecido como ator, ele reconhece que sua família influenciou sua trajetória profissional enquanto crescia.

“Eu não estava ciente até eu ficar mais velho, mas depois eu percebi que muitas das nossas conversas eram sobre criatividade, expressão, nossos sentimentos,” ele diz. “Eu sou muito grato por isso e [durante] alguns dos momentos mais difíceis da minha família, arte e expressão nos ajudaram a lidar. Eu escolhi isso em um certo ponto, mas eu estava em uma família onde as pessoas tocavam música e eram muito criativas […]. Eu já atuei com a minha irmã uma vez e ela é a pessoa mais difícil de se trabalhar, porque ela sabe quando estou de saco cheio. Você não pode se safar com nada, então esse é o nível mais alto de ator com quem você pode trabalhar – seu irmão – porque vocês se conhecem.”

Gyllenhaal está bem ciente de que seu papel em Homem-Aranha é um grande negócio, mesmo para um ator tão bem-sucedido, mas ele é rápido em apontar que atuar em um filme independente pode ser tão gratificante quanto participar de uma grande produção.

“Eu realmente achei que trabalhar em um filme da Marvel e em um filme do Homem-Aranha é uma aventura completamente nova da qual eu nunca tinha feito parte – estar em algo tão grande que você é uma pequena parte de algo […] porque não é apenas um filme, mas o universo inteiro, e o personagem que você está interpretando se encaixa nele”, diz ele.

“Trabalhando em filmes pequenos você se acostuma com aquela intimidade, mas o que eu descobri com Homem-Aranha é que John Watts, o diretor, está muito acostumado a encontrar momentos reais mesmo nessas grandes produções, e ele gasta tempo fazendo isso – é o que faz o filme ótimo.” Filmes da Marvel, como a saga dos Vingadores, permitem que atores sejam vistos por públicos que antes estavam fora de alcance. O mesmo vale para os serviços de streaming, como a Netflix, que se tornaram as plataformas padrão para os jovens espectadores consumirem entretenimento. Gyllenhaal, que desempenhou o papel principal em Velvet Buzzsaw (2019), uma paródia sobre o mundo da arte produzido pela Netflix, acolhe a empresa de streaming como uma nova maneira de os contadores de histórias se comunicarem com um público ainda maior.

“Isso diz algo sobre a minha confiança, e, potencialmente, minha estupidez, que acho que tudo que eu faço vai ser visto em todo o mundo,” diz Gyllenhaal. “Eu fiz filmes minúsculos que encontraram um caminho de chegar em todo o mundo, o que é um pouco alucinante porque você atua nessa coisa pequena e pensa que ninguém vai ver.”

“Com Homem-Aranha é obviamente diferente, mas eu não penso nisso quando estou trabalhando. Eu acho realmente divertido que você esteja se comunicando em um idioma internacional, que você não está dialogando apenas com sua própria cultura e em seu próprio idioma, e que você está falando em um nível diferente. E como ator, é maravilhoso e shakespeariano ser capaz de traduzir sua expressão para todos ao redor do mundo, e é divertido interpretar um papel onde você está pensando que os sentimentos que você mostra têm que ser verdadeiros porque a única coisa que conecta todos nós é quando sentimos que alguém está sendo honesto, não importa de que cultura eles são.”

Apesar de Gyllenhaal não falar muito sobre isso, ele tem sido um seguidor do Budismo e de religiões orientais desde seus tempos de faculdade na Universidade de Columbia.

“Eu estava procurando por um escape para a criatividade, e particularmente a religião oriental e o pensamento oriental, e a ideia do budismo e a cultura tibetana me pareceram interessantes”, diz ele. Ele é particularmente fascinado com a forma como a cultura tibetana, com seu próprio líder espiritual, foi capaz de cruzar as montanhas do que era então “um dos países militaristas mais dominadores do mundo”; – China – para “um país completamente espiritual” – Índia.

“Eu não sou um budista de carteirinha e eu não me considero assim, mas eu carrego isso comigo em muitas coisas e, filosoficamente e culturalmente, eu acho que há algo na cultura asiática e na ideia de artesanato e disciplina, e a importância da hierarquia ou de onde você começa, e de quem você aprende, e aquelas coisas que são a estrutura da cultura.”

“É algo que eu adoro e sinto que está sumindo um pouco nos EUA, onde é mais sobre quem eu posso conseguir para chegar em um lugar mais fácil em oposição ao que eu posso aprender; como eu posso dominar algo para chegar a outro lugar. Eu gosto de pensar sobre o Tibete e a espiritualidade; isso foi provavelmente parte disso para mim.”

Suas opiniões sobre o Tibete à parte, Gyllenhaal nunca foi abertamente político. Seus papéis no cinema – desde seu papel gay pioneiro em Brokeback Mountain em 2005 até seu papel mais recente como vítima de um atentado terrorista em Stronger (2017) – ajudaram a explicar um pouco sobre os seus ideais.

“Eu cresci em uma família muito aberta onde as pessoas falavam o que pensavam e eu conhecia pessoas de culturas muito diferentes, e minha mãe era uma feminista muito forte em muitos aspectos desde quando ela estava no ensino médio e durante toda a faculdade e em seu trabalho também,” diz Gyllenhaal. “Ela foi uma grande influência para a minha irmã nesse sentido, e indiretamente as duas são para mim.”

Gyllenhaal diz que não tem medo de expressar suas convicções, mas: “Há outras pessoas que falam mais articuladamente do que eu, mas minha maneira de falar é através do meu trabalho, através da atuação, através dos filmes que escolho, dos artistas que eu apoio, as pessoas que eu apoio – mesmo que seja indiretamente. Eu acho que se você olhar de perto quem eu sou, você pode descobrir no que eu acredito.”


Fonte: South China Morning Post
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

Jake Gyllenhaal é pontual para o compromisso, ligando de sua casa em Nova York. Conforme seu pedido específico, ele gentilmente, mas com firmeza, se recusa a descrever seu apartamento em detalhes. “Só vou te dizer que tem muita madeira e várias cadeiras confortáveis. É um daqueles apartamentos onde você quer se aconchegar sozinho, talvez quando estiver com febre alta. Mas em geral não é algo que eu goste de falar”, ele diz, enfatizando ainda mais sua posição bem conhecida se tratando de privacidade. Ele é conhecido por deixar entrevistas quando os jornalistas se tornam muito agressivos ao perguntar sobre seus gostos ou interesses amorosos anteriores. Aos 38 anos, ele tem uma visão do mundo que é séria e firme. Ele tem ideias fortes e nobres (os Gyllenhaals descendem de uma família de aristocratas suecos) sobre masculinidade: “Eu acho que ser um homem significa, em primeiro lugar, ter um coração aberto, mas, ao mesmo tempo, uma mente forte para protegê-lo.” Em Nova York, as colunas de fofoca falam sobre seu apartamento ser repleto de fotografias gigantes de si mesmo. Isso começou com o New York Post’s Page Six, mas ele desmente isso com uma gargalhada. “Eu gosto de colocar cartazes dos meus filmes. Isso é verdade. O resto é ridículo.” Essa galeria de filmes importantes inclui Donnie Darko, Brokeback Mountain, Zodíaco e Nightcrawler. Em seu filme mais recente, o vemos assumir o papel de Mysterio no novo Homem-Aranha: Longe de Casa, o qual estreia na Itália no dia 10 de julho. Pode-se imaginar seu apartamento como sendo um clube de homens cheio de conversas e fumaça de charuto. Gyllenhaal realmente fumou charutos por um tempo, mas sem muita convicção. “Eu era bom em me fazer de fumante, com pensamentos profundos e filosóficos, e até comprei um umidificador profissional que eu nunca usei. Eu também experimentei cachimbos por um tempo, mas no final percebi que prefiro não fumar.” Isso também porque ele corre cerca de 16km algumas vezes na semana, com sapatos de sola fina que dão a impressão de estar correndo descalço. Ele aprendeu sobre esse estilo de corrida dos atletas naturais na tribo Tarahumara no México: “‘Born to Run’, que conta a história deles e a sua cultura de corrida, é um dos meus livros favoritos”. Ele então discute vários exemplos de como ele tem tentado manter sua própria vida simples, buscando achar um equilíbrio entre estrutura e superestrutura.

Por exemplo, ele vendeu sua motocicleta por praticamente o mesmo motivo que abandonou Havanas e Montecristos. “A motocicleta te faz ter uma ‘pose’, e eu já tenho que posar para o meu trabalho. Eu não queria que isso também fizesse parte da minha vida.” No geral, ele não se considera superfã ou um especialista em nada, além do comportamento humano, o qual ele observa com constante curiosidade. “Eu saí com um caderno Moleskine na mão por um tempo e fiz anotações como uma maneira de parecer concentrado e legal. Então eu tentei memos de voz, que eu tinha visto amigos músicos usarem.” No final, ele percebeu que sua memória era a melhor maneira de “cortar e colar” mentalmente, uma ideia que ele obteve dos ensinamentos de alguns dos melhores gurus de Hollywood. “Se você está aberto e em um espaço criativo, tudo o que você internaliza vem à tona nos momentos em que você precisa. Estes são os ensinamentos de David Lynch e seu livro Catching the Big Fish. Você precisa prestar atenção às coisas que nos conectam com os outros, através da experiência e da inspiração. Esse é o segredo da conexão entre criatividade e meditação, pelo menos da maneira que eu enxergo.”

Esse estado mental perceptivo é algo que Gyllenhaal cultivou ao longo dos anos e que funciona bem com sua natureza desapegada que ele atribui à sua miopia extrema. Desde que ele era criança, isso o manteve separado do mundo, que ele via através de uma lente incrivelmente fora de foco. “Sem lentes de contato, sou praticamente cego. É daí que vem o mistério da minha visão estranha das coisas.”

Ainda hoje, ele usa pequenos truques para se privar ou se livrar das pessoas, como se oferecer para lavar a louça depois dos jantares. “É uma coisa antissocial interessante de se fazer. Você pode evitar conversas chatas e ter certeza de que as pessoas realmente interessadas em você vão procurá-lo na cozinha para conversar.”

Como filho do diretor Stephen Gyllenhaal e da roteirista Naomi Foner (assim como o irmão mais novo de Maggie Gyllenhaal e cunhado do ator Peter Sarsgaard), ele cresceu entre os mais importantes de Los Angeles. Ele amava musicais quando criança, e aos 11 anos já estava no set de A Dangerous Woman dirigido por seu pai. Steven Soderbergh vivia em um apartamento acima da garagem da família antes dele se tornar famoso. Quando Gyllenhaal foi batizado, Paul Newman foi escolhido como seu padrinho e Jamie Lee Curtis como sua madrinha. E até seus pais se separarem quando ele tinha 30 anos, ele não tinha conhecido muita dor em sua vida. Mas essa existência um tanto fácil não foi desperdiçada na frivolidade; ele é teimosamente auto reflexivo para isso.

“Não há erros na vida”, ele diz a si mesmo repetidamente. Isso não apenas resume a filosofia de Gyllenhaal, mas também é típico da maneira um tanto abstrata em que sua mente funciona. Ele aparenta não ter nenhum problema de controle. Ele está confortável com sua vida e diz que tomou algumas decisões com cuidado e outras sem nem pensar, mas seguiu com elas do mesmo jeito. Ele fala de um grupo bastante estável de amigos, pessoas que gostam de conversas sérias e de se reunir nas noites de domingo para jantares e discursos: política, meio ambiente, assuntos atuais, arte. Uma seleção de nova-iorquinos instruídos de classe alta, de quem ele leva material para seu trabalho: o crítico de culinária, o chef, o advogado constitucional, o ativista ambiental e, alguém realmente importante para ele, a música Jeanine Tesori, uma das mais aclamadas compositoras da Broadway. Jake a descreve como “uma mulher incrível que teve e continua a ter um grande impacto na minha vida.”

Ele fez amizade com Jaime FitzSimons, um xerife do Colorado que trabalhou como consultor policial para Hollywood. Eles trabalharam em filmes juntos, incluindo End of Watch e Prisoners. Esse cowboy o protegeu de um ataque não-provocado por um cara bêbado fora de um restaurante. “Eu não faço ideia do porquê ele queria me bater, talvez para ter uma boa história para contar para seus amigos. Mas a moral da história é que é legal ter um policial como amigo quando alguém quer te machucar.”

Para se preparar para End of Watch, ele andou por umas das piores partes de Los Angeles no banco de trás de um carro da polícia. Ele viu um homem morto durante uma parada de drogas, baleado por um oficial bem diante de seus olhos, e isso é algo que o afetou muito. “Foi um alerta, me fazendo perceber que existência privilegiada eu tive até então.” Recentemente, ele se aproximou do Jeff Bauman, que sobreviveu ao bombardeio durante a Maratona de Boston em 15 de abril de 2013. Ele perdeu as pernas. Gyllenhaal interpretou Bauman no filme Stronger.

O diretor Sam Mendes disse que o “Jake é um homem, um artista, com uma alma que é acessível.” Ao escutar essas palavras, Gyllenhaal respira e as descarta. “Ai meu Deus. Isso não é verdade. Eu não sou nada disso.” Na verdade, a imagem primordial dele é a de um homem que ainda é parcialmente um mistério, que prefere olhar mais para dentro do que pra fora. “Isso é verdade. Eu sou assim. Eu explorei mais o mundo criando meus personagens do que na vida real. Esse é um espaço Shakespeareano protegido, onde eu sempre me senti mais seguro.”


Fonte: Vogue Itália
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

Jake Gyllenhaal esteve no programa The Tonight Show Starring Jimmy Fallon na última terça-feira, 19. Traduzimos a entrevista e vocês podem conferir a transcrição abaixo:

Jimmy: Parabéns, a propósito, no novo capítulo Marvel na sua vida.
Jake: Obrigado.
Jimmy: Mysterio. Eles sabem. Cara, foi uma grande coisa quando o trailer saiu. Você vai ser o Mysterio no novo “Homem- Aranha.”
Jake: Sim.
Jimmy: E eu fiquei muito empolgado com isso. E eu vi que Ryan Reynolds, nosso amigo, postou uma – vou riscar isso porque tem umas palavras sujas. Vocês não podem ver.
Jake: Nossa.
Jimmy: Ryan Reynolds postou uma foto sua e do Hugh Jackman em uma festa de fim de ano.
Jake: Isso é Photoshop. A gente não estava juntos de verdade.
Jimmy: E dizia “Esses caras me disseram que era uma festa de suéters.” Então – Eu acho que é uma foto incrível – a melhor reação. Eu amei. Achei maravilhoso. Então, você finalmente criou uma conta no Instagram.
Jake: Sim.
Jimmy: Você, o quê? – Quero dizer – Você é o último da resistência.
Jake: Obrigado!
Jimmy: Você era a última resistência, cara. A gente estava te esperando.
Jake: A última pessoa a entrar pro Instagram.
Jimmy: Sim, o Instagram estava esperando por você.
Jake: Sim, eu cheguei a conclusão que ninguém se importa com mais nada, então eu deveria criar um Instagram.
Jimmy: Não, as pessoas – Elas se importam.
Jake: Se importam?
Jimmy: Sim. Por isso que elas entram pro Instragram.
Jake: Ah, sim, não
Jimmy: Elas se importam com todo mundo.
Jake: Eu nem tenho certeza se eu estou no Instagram.
Jimmy: Você definitivamente está.
Jake: Estou?
Jimmy: Eu te vi no Instagram.
Jake: Sim, eu estou no Instagram.
Jimmy: É, você está.
Jake: Eu estou no Instagram.
Jimmy: Bom, você pegou essa foto – Tinha aquela foto, e daí você pegou – Você fez usou Photoshop na foto. E daí você, Deadpool, Wolverine. Esse é o Jimmy Bolha?
Jake: Sim, esse é o Jimmy… E o Homem-Aranha também, no cantinho.
Jimmy: É, é o Aranha ali no canto.
Jake: É o Homem-Aranha no canto. Foi um cara chamado BossLogic, na verdade. Foi ele quem fez isso.
Jimmy: Ele que fez isso para você?
Jake: Sim, a gente devia dar um agradecimento a ele, porque eu não tenho absolutamente nenhuma habilidade artística. Não existiria nenhuma possibilidade de eu conseguir fazer isso.
Jimmy: Bosslogic?
Jake: Bosslogic, isso
Jimmy: “Bass” ou “Boss”?
Jake: Eu não sei, cara.
Jimmy: Você conhece alguém que se chama Bosslogic?
Jake: Esse é o cara que fez a foto – Bosslogic. “Ba-sla-jik.”
Jimmy: “Ba-sla-jik?”
Jake: Ba-sla-jik.
Jimmy: O nome dele é “Bas-Laji.”
Jake: “Bas-laji.”
Jimmy: Ah, Bosslogic.
Jake: É Bosslogic.
Jimmy: Ai meu Deus. Sim, não, claro.
Jake: Ele é ótimo.
Jimmy: Nikolai Baslajic, sim. É um agente da CIA. Ele é procurado em 30 países. Claro!
Jake: Baslajica?
Jimmy: Sim, em Baslajica. Baslajica, é da onde ele é, claro. Mas, cara, aqui está você como Mysterio. Olha isso. Você apareceu na tela, e as pessoas ficaram “Uau!”
Jake: Sim.
Jimmy: E como – viu do que eu estou falando, cara?
Jake: Quem diria – quem diria que. É que, tipo, esses são os lasers verdes que eu realmente atiro pelas minhas mãos.
Jimmy: Sim, eu sei disso faz anos.
Jake: Eu consigo fazer isso, e é por isso que eles me contrataram.
Jimmy: E finalmente você pode fazer bom uso disso em um filme.
Jake: Sim, finalmente! Finalmente!
Jimmy: Tipo, você fica fazendo truques quando está no cinema e tals.
Jake: Quando eu era criança, meu pai falava tipo, “O que vamos fazer com essa criança?”
Jimmy: Mãos de laser! Meu Deus! E agora, aqui está você, em um filme de grande produção.
Jake: Sim. Valeu a pena, meu.
Jimmy: Como é o Tom Holland?
Jake: Ele é ótimo, cara.
Jimmy: Cara, ele é ótimo?
Jake: Ele é incrível.
Jimmy: É, ele é legal.
Jake: Ele é o cara mais legal. Do mundo.
Jimmy: Ele é.
Jake: Eu adoro ele como Homem-Aranha.
Jimmy: Sim. Mas eu acho que é mais divertido o que você está fazendo no Instagram. Você está meio que trollando ele.
Jake: Meu Deus! Toda essa coisa de Instagram… Você realmente gosta disso.
Jimmy: Cara, eu totalmente –
Jake: Você está obcecado com o meu Instagram.
Jimmy: Ah, sim, o seu Instagram. Sim, sigam o Jake no Instagram. @jakegyllenhaal.
Jake: Esse é meu nome.
Jimmy: Isso. Estou surpreso que você conseguiu esse nome. Porque você não estava no Instagram por tanto tempo. Alguma outra pessoa provavelmente devia ter pego.
Jake: Acho que alguém pegou bem no começo.
Jimmy: Você teve que comprar de um estranho? Que dizia que era o Jake Gyllenhaal?
Jake: Não. Alguém conseguiu pra mim.
Jimmy: Só me conta.
Jake: Eu tenho amigos.
Jimmy: Foi o Baslajic?
Jake: Baslajic.
Jimmy: Não sei sobre esse cara. Ele consegue fazer de tudo. Se você quer que seja feito, ligue pro Baslajic.
Jake: Bosslogic está pirando agora.
Jimmy: Ele vai cuidar disso, cara. Ele vai cuidar disso tudo.
Jake: Eu consegui. Alguém conseguiu. Eu não sei como a gente conseguiu, mas agente conseguiu.
Jimmy: Bom, você tem agora, é @jakegyllenhaal. E você postou essa coisa que eu achei engraçada, do Tom Holland. Acho que ele estava só dando uma entrevista. Você tirou toda a voz – todo o áudio da entrevista dele, adicionou essa música estranha. Só assista.
Jake: Ele – ele é só… maravilhoso.
Jimmy: Ele é o homem dos sonhos.
Jake: Ele é.

Jimmy: Nós temos muito sobre o que falar
Jake: Sim!
Jimmy: Primeiramente quero te parabenizar por estar de volta ao teatro. Você sempre apoia o teatro, cara. Eu gosto disso, que você faz isso. Você está no Teatro Público de Nova York, o que é maravilhoso. Já estive lá algumas vezes.
Jake: É uma grande honra. É uma grande honra estar lá.
Jimmy: Sim. É mesmo. Eu assisti “Hamilton” lá uma vez.
Jake: Sim! Estamos no mesmo teatro que “Hamilton”.
Jimmy: Mas o que é isso – são dois projetos em um, certo?
Jake: Isso. São dois monólogos. Um deles se chama “Sea Wall”,e o outro se chama “A Life”. E eu estou em “A Life”.
Jimmy: Você está em “A Life”. É a primeira parte ou a segunda parte da peça?
Jake: É a segunda parte.
Jimmy: Então, para seus fãs, eles podem só pular a primeira metade e ir te ver. Não estou dizendo que você está falando para as pessoas fazerem isso, mas –
Jake: Eu acho que você viraria um novo fã do Tom Sturridge, que faz o primeiro monólogo, porque ele fantástico.
Jimmy: Sério?
Jake: Sim. Então, sim.
Jimmy: Como você se envolveu nisso?
Jake: Então, de qualquer forma, eu fiz dois outros shows com esse escritor, Nick Payne, e são shows lindos. E daí ele me deu esse monólogo, porque ele escreveu para ele próprio, na verdade. E era sobre –
Jimmy: Bom, eu sei sobre o que é.
Jake: Sim, é sobre o falecimento do pai dele, inicialmente. E então – E eu pedi por quatro anos para ele se eu poderia fazer essa peça, e ele dizia “Não”, porque era muito pessoal para ele. E daí ele teve uma filha, um ano e meio atrás, e eu pedi de volta. E eu acho que ele já passou por muita coisa. Mas daí a gente pensou que talvez poderíamos fazer sobre ambos o falecimento do pai dele e do nascimento da filha dele. E a peça é realmente sobre isso.
Jimmy: Ai meu Deus!
Jake: Então é bem comovente, é comovente, mas é linda. É uma peça linda.
Jimmy: E como é a reação da plateia?
Jake: É bem especial. Quero dizer, quando você vem, é tipo – Meio que todo mundo – A plateia, em um monólogo, é tipo – Você sabe, certo? É como se eles fossem seus parceiros.
Jimmy: Você precisa da plateia. Acredite em mim – Eu amo vocês. Vocês são os melhores do mundo inteiro. Tão melhor que a da noite passada. Tão melhor que a da noite passada. Essa é a melhor plateia que eu já tive.
Jake: Eles são bem bons.
Jimmy: Sim, sim, sim.
Jake: Essa é minha família agregada.
Jimmy: É. Eu amo sua família.
Jake: Eles são ótimos. É, sim, não. Então, na verdade, sim, e tipo, coisas acontecem todas as noites, mas, geralmente, quando você está fazendo uma peça, você sabe, tipo, um telefone toca, ou alguma coisa acontece, você sabe, coisas aleatórias acontecem em uma plateia todas as noites. Tantas, tantas coisas estranhas.
Jimmy: Sim.
Jake: Então, por exemplo, abrir um doce que dá pra ouvir tão alto, até, outra noite tinha alguém cantando no corredor. Eles estavam meio que aquecendo a voz, e todo mundo estava escutando.
Jimmy: Da onde? Tipo, era um cantor?
Jake: Bom, no Teatro Público tem também “Joe’s Pub”, e tem vários outros teatros nesse teatro. Então, tinha uma mulher que estava preparando sua voz.
Jimmy: Enquanto você fazia esse monólogo sério.
Jake: Tipo “la, la, la, la”. Sim, era um monólogo super sério. Mas você meio que só vai, porque é um monólogo, então está tudo muito presente. Sabe? E em um outro dia, uma mulher estava tossindo bem alto, tipo, muito, muito alto – e eu me senti tão mal por ela – no meio da peça. E, então, eu só perguntei se ela estava bem no meio do monólogo.
Jimmy: Sério?
Jake: Sim, sim. Ela estava tipo… E eu falei “Você está bem?” E daí ela “Eu estou bem! Pode continuar!” E eu estava tipo – Eu corri para fora do palco e peguei água e dei pra ela.
Jimmy: Sério mesmo?
Jake: Sim. Eu dei água pra ela.
Jimmy: Esse é um bom homem.
Jake: Sim, porque não?
Jimmy: Essa é uma boa jogada. E esse é o preço da entrada.

Jimmy: Eu quero falar sobre esse novo filme “Velvet Buzzsaw”. Eu vi você na Netflix outra noite porque eu estava assistindo algo e aí apareceu “Se você gosta disso, vai gostar de Velvet Buzzsaw”. Eu to falando sério.
Jake: Eu quero saber o que você assiste na Netflix.
Jimmy: O que eu estava assistindo na Netflix?
Jake: Se você gosta disso, vai gostar de Velvet Buzzsaw.
Jimmy: É, interessante o porquê, é sobre o mundo da arte e sobre assassinato e coisas do tipo. Ah, sabe o que pode ter sido?
Jake: É um filme de terror.
Jimmy: Talvez tenha sido Bandersnatch.
Jake: O que? O que é isso?
Jimmy: Cara, você não viu Bandersnatch?
Jake: Todo mundo está chateado comigo.
Jimmy: Ah cara, você vai enlouquecer. Você vai amar isso.
Jake: Bosslogica?
Jimmy: O Bosslogica ia amar isso. Tá brincando? Você vai enlouquecer.
Jake: Sério?
Jimmy: Com certeza, é meio que a mesma coisa.
Jake: Você, tipo, me mantém numa caverna?
Jimmy: Black Mirror é bom.
Jake: Sim. Você tava esperando que eu dissesse “Eu não sei o que é isso”, certo?
Jimmy: Não.
Jake: Ok, que bom.
Jimmy: Eu sei que você sabe o que é isso. Porque eu pensaria que isso me lembra algo parecido.
Jake: Ok.
Jimmy: Essa história. Bem, eu vi seu rosto e eu gosto muito de você. Eu tava com a minha esposa também. E eu vi seu rosto, tipo, aparecer na tela. Você faz esse negócio em que você está bem na frente da câmera. E eu pensei “Eu nunca vi esse filme do Jake Gyllenhaal”. E eu gostei. Eu assisti.
Jake: Bom, muito obrigado.
Jimmy: Bem, basicamente a ideia se passa no mundo da arte e basicamente, eu não quero falar seu nome ainda porque é um nome tão bom.
Jake: Morf Vandewalt.
Jimmy: Qual é. O que está acontecendo com esses nomes que você está dizendo?
Jake: É um nome real.
Jimmy: Bosslogic e Mors— Moss— Não, Mort Van—
Jake: É Bosslogica e Morf Vandewalt.
Jimmy: Morf Van—Mor—Seu primeiro nome é Morf.
Jake: Morf Vandewalt.
Jimmy: Cara, você surtou quando você foi o Morf?
Jake: Todo mundo na banda está tipo… Você está rindo. Foi mal. Sim.
Jimmy: Morf Vandewalt.
Jake: Morf Vandewalt, sim.
Jimmy: Quando você descobriu que você ia interpretar— primeiro de tudo, você trabalhou com esse diretor antes, em Nightcrawler.
Jake: Sim, Dan Gilroy.
Jimmy: Cara, você estava— quer dizer, obviamente, você estava ótimo nesse filme, todos nós sabemos. Você estava absurdamente bom nele.
Jake: Obrigado.
Jimmy: Eu não sei por que você escolhe esses papéis loucos. Faz um papel em que você, tipo, fica relaxando por uma hora e meia. Faz um papel em que você fica descansando em uma cadeira ou algo assim.
Jake: Tipo o que?
Jimmy: Porque eu me sinto mal porque você faz todos esses dramas psicológicos loucos. Eu me sinto mal. Eu me preocupo com o seu cérebro.
Jake: Me diz o que você quer que eu faça e eu vou tentar fazer.
Jimmy: Faz tipo, um desenho animado ou algo do tipo.
Jake: Ok.
Jimmy: Você vai fazer?
Jake: Aham.
Jimmy: É divertido.
Jake: Essa foi minha voz de desenho animado.
Jimmy: Ah é?
Jake: Ok, sim.
Jimmy: Você não consegue fazer o Mickey Mouse.
Jake: Parece bom.
Jimmy: Sim, ta bom. Eu vou assistir de qualquer maneira. Ok, espera. Então, basicamente você está no mundo da arte e se você comprar as obras desse artista— se você é nojento e gasta dinheiro com isso e usa de maneira errada, a obra ganha vida e te mata.
Jake: Sim, basicamente isso.
Jimmy: É fantástico. Velvet Buzzsaw.
Jake: Sim, eu interpreto um crítico de arte. E ele é bem importante no mundo da arte. Quando ele faz uma crítica, meio que pode fazer ou destruir a carreira de um artista, sabe. Então, sim, todo mundo— a arte se vinga das pessoas que tentam e utilizam as obras de maneira errada. E é meio sobre como nós valorizamos a arte. Tipo, nós valorizamos por causa de quanto custa em termos de dinheiro ou por que nós gostamos?
Jimmy: Eu sou muito mais do mundo do “gostar”.
Jake: Sim.
Jimmy: É por isso que eu não tenho uma coleção cara.
Jake: Sim, sim.
Jimmy: Pôsteres caros tipo da revista Mad.
Jake: Ai meu Deus. Eu tenho a revista Mad também.
Jimmy: Você tem?
Jake: Sim, eu amo a revista Mad.
Jimmy: Eu também amo.
Jake: Sim.
Jimmy: Você já esteve na capa?
Jake: Não.
Jimmy: Alô, seu sonho está prestes a virar realidade, cara. Pode sair. Não, eu estou só brincando.
Jake: Ai meu Deus! Ai meu Deus! O que? Ai meu Deus!
Jimmy: Me desculpa, desculpa, desculpa.
Jake: Ah cara.
Jimmy: Mas da próxima vez.
Jake: Eu achei que estava na “Ellen” por um segundo.
Jimmy: Eu quero mostrar um clipe pra todo mundo. Aqui—
Jake: Alfred E. Newman aparece. Ai meu Deus!
Jimmy: Eu vou te surpreender. Eu vou pegar a Ellen para me ajudar também. Ellen, vamos surpreendê-lo. Colocá-lo na revista Mad. Eu quero mostrar um clipe para todo mundo. Aqui está Jake Gyllenhaal em Velvet Buzzsaw. Deem uma olhada nisso.

[trecho de Velvet Buzzsaw]

Jimmy: Não percam Jake Gyllenhaal em Velvet Buzzsaw. Já está sendo transmitido. Vão na Netflix e assistam. Velvet Buzzsaw.


Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

Em Sundance, Jake Gyllenhaal se reúne com Krista Smith para falar sobre sua nova colaboração com Dan Gilroy, diretor e roteirista de O Abutre, em seu novo filme Velvet Buzzsaw.

KRISTA: Jake, sempre me alegra ver você.

JAKE: É muito bom te ver também.

KRISTA: É sempre um ótimo dia quando te vejo no cronograma.

JAKE: É mesmo?

KRISTA: Sim, claro.

JAKE: Que legal!

KRISTA: Eu amo conversar com você! E Dan Gilroy, para mim, vocês colaboraram em uma das minhas atuações preferidas suas em “O Abutre”.

JAKE: Obrigado.

KRISTA: E talvez uma parte disso tenha tido haver com a mídia, possivelmente. Mas eu achei você tão bom nesse filme.

JAKE: Tinha haver com a mídia, mas também tinha haver com o estado atual dos assuntos no nosso mundo, então…

KRISTA: Então aguçou minha curiosidade quando vi que vocês iam trabalhar juntos novamente, e com a esposa dele, Rene, que está nesse filme também, no mundo das artes desta vez e o título é brilhante.

JAKE: Sim.

KRISTA: Velvet Buzzsaw.

JAKE: Isso.

KRISTA: Só isso já me conquistou.

JAKE: Eu sei, acho que foi quando eu li o roteiro pela primeira vez, era Projeto Sem Nome do Dan Gilroy, ou talvez era Velvet Buzzsaw e ele mudou para Sem Nome e daí voltou no seu instinto natural, o que eu acho que foi a escolha certa. Quando você assistir o filme, você vai saber.

KRISTA: Eu vou? Bom, o personagem, Morf Vandewalt, é bem fabuloso.

JAKE: Ele é.

KRISTA: E o jeito que você se apresenta no filme é muito fabuloso.

JAKE: Obrigado.

KRISTA: Então deve ter tido algum tipo de arquivo de pesquisa, eu adoraria ter visto isso. Em como você chegou nesse cara, e nos visuais e tal. Pode me contar um pouco sobre isso?

JAKE: Sim, esse foi diferente. Eu não sei, nesse foi tipo, acho que teve um acordo. Dan e eu fomos bem obscuros e profundos em O Abutre, e esse personagem, eu senti e o li como mais divertido. Então eu estava tentando criar ideias que viessem de um senso de diversão. Tiveram coisas estranhas que surgiram durante, nas preparações, meses antes. Ideias que mudamos, e elas eram tipo as coisas comuns, como Jerry Saltz e pesquisando sobre crítica em geral no mundo da arte, e entrando em festas quando eu conseguisse. E escutando o que as pessoas tinham a dizer sobre diferentes peças de arte, e isso e aquilo. Mas daí se tratava de tentar descobrir quem essa pessoa era, e isso foi difícil. Ele é um cara que está com dificuldades em criticar outras pessoas, mas ao mesmo tempo tentando descobrir sua própria identidade. Sua própria identidade sexual, seu lugar no mundo, qual é o trabalho dele. Então, particularmente a ideia de um cara que meio que… um personagem que começa como esse crítico, e ele é um personagem gay, e daí ele “vira hétero” para essa mulher no filme. Então para mim, eu estava meio, sem que se tornasse uma caricatura, como posso pintar esse personagem de uma maneira que seja realista? E Dan e eu passamos por essa pesquisa, e de alguma maneira nós pensamos no Brandon como uma inspiração. De certo modo essa ideia de masculinidade. Essa ideia profunda de masculinidade e ao mesmo tempo alguém que não tinha limites nesse sentido e foi fascinante. E eu vi essa foto dele beijando um gato e essa foi definitivamente minha verdadeira inspiração. E aí eu roubei os óculos do maquiador do filme.

KRISTA: Oh, você roubou?

JAKE: Sim, sim, ele usa esses óculos e eu só peguei eles do rosto dele no teste de câmera e nós o experimentamos e o Dan ficou tipo, eu acho que é isso. E eu fiquei, legal, então é isso.

KRISTA: Sim, isso é muito bom. Então isso realmente distorce um pouco o mundo, não? É um suspense obviamente, mas conhecendo o Dan, ele tem uma pegada muito intelectual. E meio que vira isso na cabeça dele sobre esse absurdo. E eu acho, claramente trabalhando com a Vanity Fair nós estamos nisso e há ótimos artistas e vários deles, mas também tem esse lado distorcido onde isso parece arbitrário às vezes quando você está tipo “Ah, será que meu filho de seis anos conseguiria fazer essa pintura ou ela vale 22 milhões?”

JAKE: Totalmente, totalmente.

KRISTA: Tudo depende dos críticos nos dizendo que é um retrato de 2 milhões e não um retrato que seu filho fez.

JAKE: E eu tenho certeza que você ama a pintura do seu filho de seis anos muito mais do que você amaria uma de 22 milhões. Digo, sim, eu acho que é uma parábola, esse filme, uma parábola sobre ganância e definitivamente sobre… O Dan faz essas estranhas histórias proféticas. Ele vê algo e então começa a pegar os eventos recentes e começa a ver o nosso mundo. Ele vive em um espaço muito isolado da mente dele, e eu acho que ele queria mostrar quão longe nós chegamos se tratando do que damos importância, tipo ao que nós damos valor. E por nós darmos importância para coisas tipo um Hockney de 90 milhões, e de certa maneira isso ganhar e perder valor por um certo tempo de uma maneira estranha desvalorizou o artista e a expressão, e então desvalorizou o nosso questionamento sobre nós mesmos. Apenas pensando, “Bom, o que eu valorizo? O que eu amo? O que realmente me interessa?” Não o que outras pessoas me dizem, e isso e aquilo. E eu acho que é isso que ele está tentando dizer. E eu acho que ele realmente diz isso de uma maneira que obviamente é assustadora e também é engraçada e completamente absurda. Mas eu acho que esse é o objetivo. Ele nunca admitiria que é uma pessoa esperançosa, mas eu acho que ele está soltando um alerta novamente, meio que “Será que nós podemos não fazer outro Lou Bloom real do mundo de O Abutre?”.

KRISTA: Bom, tem isso e tal nas notícias nos últimos anos sobre a lavagem de dinheiro através do mundo da arte e esse é um novo lugar. Costumava ser imobiliário, costumava ser isso e agora o mundo da arte e os preços aumentaram, e as coleções… Você já se sentiu tentado a colecionar ou você coleciona arte de um modo geral?

JAKE: Eu não sei, não, na verdade eu não coleciono, mas eu já me senti, e me senti por causa desse filme, tentado a colecionar. E eu me sinto [tentado] quando vou a uma exposição, e eu amo ir em museus, eu geralmente penso, “Bom, isso seria algo que eu colocaria na minha casa?”, ou “O que é isso? O que era isso? Por que as pessoas colocam isso na casa delas?” Já estive em casas em que as pessoas colocam, mas não, eu sou movido por coisas diferentes. Eu considero que a arte está em todo lugar. A primeira obra de arte que eu comprei foi essa foto que estava acompanhada de uma obra do John Updike no New Yorker que eu amo. E foi bem emocionante, porque foi algo que eu tirei do mundo e eu fiquei tipo isso marca um tempo da minha vida, algo significante na minha vida e para mim aquilo pareceu arte. E eu acho sim que heranças de família e coisas do tipo se tornam arte porque elas têm significado e importância, e é isso que eu valorizo. Mas claro, você pensa sobre investimentos e você pensa sobre essas coisas e aí você fica “Ai meu Deus, o que eu estou fazendo?”. Mas eu também amo esse mundo.

KRISTA: Você aprendeu bastante sobre criticar arte e a olhar para as obras de uma maneira diferente?

JAKE: Eu acho que esse tipo de coisa vem, como todos os críticos de Sundance provavelmente podem confirmar, da experiência e tempo e de assistir filmes e o amor pelo gênero e então ser capaz de ter tempo suficiente e anos de experiência para dizer “Eu já vi tudo e eu realmente posso comparar.” A única coisa que eu posso dizer a que eu relacionei, eu não fiz muita pesquisa nesse espaço, mas quando você está, digamos em um júri em um festival de filme e você tem que assistir 30 filmes em duas semanas, como que você diferencia o que você acha que é bom ou não, ou o que você gostaria de, dentre um grupo de pessoas, dar algum tipo de prêmio. Eu acho que é aí que você pensa “Nossa, isso é o que um crítico tem que fazer o tempo todo” E aí você adiciona ao que é o artista é na vida real. E se eles já conhecem os artistas ou se eu comi algo ruim hoje. Ou eu acordei no lado errado da cama hoje? E aí você percebe que é relativo também. E a coisa toda é uma expressão e eles estão se expressando. Então é isso que eu gosto de pensar quando eu leio uma crítica muito ruim. Eles apenas estavam…

KRISTA: É apenas o sushi ruim..

JAKE: Apenas o sushi, eles comeram um sushi muito ruim. Eles comeram algum sushi muito ruim na noite anterior.

KRISTA: Eles provavelmente estão errados.

JAKE: Não, não, há realmente coisas em que eu não estava bem e eu acho que isso é verdade. E apenas há coisas que não funcionam. Mas eu acho que algo que deve ser aplaudido são as pessoas que colocam coisas lá fora e fazem elas se realizarem e a determinação que se tem para criar qualquer coisa.

KRISTA: Eu tenho muito respeito por isso. Eu já estive em um júri uma vez e eu tive a visão de nossa, eles fizeram isso, eles inventaram isso. Há valor em tudo isso em um certo nível e se isso ressoa ou não, mas…

JAKE: Meus amigos sempre diziam para mim quando eu era criança, quando eu estava atuando quando criança, eles costumavam dizer “Então você gravou em duas horas, por que foi tão difícil?” Eles sempre brincavam com isso e eles pensavam que nós filmávamos tudo em duas horas porque acontecia em duas horas.

KRISTA: Sim, sim, bom eu na verdade tenho que admitir, eu era muito mais velha do que eu gostaria de admitir, antes de eu perceber que filmes não eram de fato gravados em sequência, tipo, o que? Você filmou essa cena primeiro? Esse é o fim, eu realmente pensava que era…

JAKE: Posso admitir algo pra você também? Eu estava gravando um número de filmes antes de perceber que eles estavam fora de ordem. Mas sabe, atores não são muito espertos, então…

KRISTA: Tudo bem, nós amamos você mesmo assim. Claramente eu também não era muito esperta. Ok, fala comigo sobre o Dan. Como que ele é realmente? Como é ter uma conversa com ele, trabalhar com ele? E também, a esposa dele, Rene Russo, eu acho que é incrível. Ela é maravilhosa.

JAKE: Eu também acho. Como é trabalhar com ele? Ele é um homem que por alguma razão, eu não sei ao certo o porquê, ele simplesmente não tem medo de riscos intensos. E com isso eu quero dizer risco criativo, mas também outros riscos. Eu acho que ele admira pessoas que realmente se mostram e dizem algo ousado, fazem e tentam algo ousado. Então ele vem desse espaço. Raramente há alguma ideia ruim. Há algumas ideias que são eliminadas. Mas conversar com ele é tão divertido. A mente dele é exatamente como os filmes dele são em várias maneiras, em um sentido que você acha que está indo para uma direção e então de repente você está indo para um mundo ainda mais mágico. E ele é hilário e amável. Ele é gentil com as pessoas com quem trabalha. E trabalhar com a Rene é o mesmo. É engraçado, porque eles dois são pessoas muito cínicas pra ser honesto, eles têm um ponto de vista muito cínico. Eu sei o que o Dan pensa sobre AI e isso me deu um ataque de pânico quando ele estava falando um dia no set sobre. Mas eu acho que em algum lugar neles eles são tipo, não em algum lugar, é óbvio, principalmente com a Rene que todos nós conhecemos muito publicamente. Eles são amorosos, calorosos, pessoas incrivelmente motivadoras. Eu terminava de gravar uma tomada e ele ficava tipo “Ótimo, sério, muito bom!” e eu ficava tipo “Dan, essa foi a primeira tomada” e ele “Ótimo, mas assim, foi ótimo, podemos seguir em frente, você quer?” e eu dizia “Será que podemos gravar mais algumas?” e ele “Mais algumas, ótimo!” Sabe? (risadinhas) Então assim, eu não sei dizer se ele estava, talvez na cabeça dele ele estivesse “Isso foi horrível, mas eu tenho que motivar ele” ou se realmente tinha ficado bom ou não. Eu sou incrivelmente grato e abençoado que de alguma maneira nossos mundos colidiram. Eles realmente colidiram. Eu amo eles, eu realmente os amo.

KRISTA: E esse é um suspense também, vai ser assustador, né? Eu vou ficar assustada assistindo?

JAKE: Provavelmente sim. Não posso garantir que não é assustador.

KRISTA: É, pareceu meio assustador, mas eu gosto disso.

JAKE: Depende do quão sensível você é.

KRISTA: No mundo da arte, quando o objeto dissolveu. Toni Collete, certo? Ela também está nisso, né?

JAKE: Sim, sim, a Toni é incrível, ela é incrível.

KRISTA: Sim, o visual estava divino.

JAKE: E John Malkovich e Tom Sturridge, com quem estou fazendo esse espetáculo. Mas o Tom e o John Malkovich tem uma cena no meio do filme que é tão incrível. É um daqueles momentos vendo dois grandes atores no trabalho de duas gerações diferentes, mas ver eles dois trabalhando nisso, eu diria que é a minha cena favorita do filme. É absurdo.

KRISTA: É diferente de alguma maneira para você que tem atuado por um tempo, obviamente em lançamentos tradicionais, e fazer esse filme com a Netflix onde vai ser lançado e eu poderei ver na sexta?

JAKE: É estranho, mas eu também não posso dizer que amo riscos e mudança e então ficar apegado aos meus modos e dizer “Calma aí, eu quero que seja da mesma maneira, era um lançamento teatral a maneira que eu conhecia antes”. Eu tenho que aceitar os meios em que, eu acho que nós todos fazemos, e eu apenas digo eu porque sou a única pessoa que realmente tenho algum controle sobre. Mas eu sou tipo, vamos ver no que dá, vamos ver como funciona, qual a sensação. O Dan conseguiu fazer esse filme com mais liberdade criativa e com mais liberdade financeira do que ele teria conseguido em qualquer outro estúdio, e eu acho que isso é um testamento real. E se isso significa que o filme vai ser lançado no dia depois que estrear aqui, então que seja isso, é algo novo.

KRISTA: É ótimo, porque todo mundo está falando sobre e então todos podem assistir. Eu vejo a importância disso. Então, você está em Nova Iorque agora, basicamente você é um nova iorquino. E você está preparando um espetáculo. Você vai falar um pouco sobre isso?

JAKE: Claro, eu adoraria falar sobre o espetáculo.

KRISTA: De volta ao palco.

JAKE: Sim, eu estou fazendo um espetáculo, são dois monólogos. Eu faço um monólogo e o Tom Sturridge, que está em Velvet Buzzsaw, faz o outro. E o dele foi escrito pelo maravilhoso dramaturgo Simon Stevens que escreveu O Estranho Caso do Cachorro Morto. Ele escreveu essa peça extraordinária. E eu estou trabalhando em um monólogo escrito pelo Nick Payne. Eu já fiz dois espetáculos dele até agora, dirigido por essa incrível diretora, Carrie Cracknell. Ela é maravilhosa, e vai acontecer no The Public e nós começamos na sexta.

KRISTA: Então eles estão interligados?

JAKE: Sim, eles meio…

KRISTA: Gerados por uma razão, obviamente.

JAKE: Sim, bom na verdade eles foram escritos separadamente. E aí, de alguma maneira, por meio de um curioso caso dO Estranho Caso do Cachorro Morto, eles meio que se juntaram. O Tom sempre quis fazer isso e eu sempre quis fazer o monólogo do Nick. E eles são sobre amor. Sempre que nós amamos algo ou alguém, a possibilidade de que inevitavelmente nós vamos perdê-los, mas também o que nasce do amor. A minha parte em particular é sobre a morte do pai dele e o nascimento da filha ao mesmo tempo. Eles não acontecem ao mesmo tempo, mas eles se juntam, a ideia de que a vida e a morte meio que existem no mesmo espaço. E há uma beleza extraordinária em ambas. Então minha parte é sobre isso, mas eu não vou entregar a parte do Tom, mas é uma peça linda.

KRISTA: Como que está indo a sua memorização?

JAKE: Bem.

KRISTA: Bem?

JAKE: Sim, isso é o menor dos meus problemas.

KRISTA: A internet explodiu com Homem-Aranha e tem um Jake escondido lá. O Jake aparece, isso é animador, certo?

JAKE: Sim, eu sei, eu sei.

KRISTA: Como um vilão, certo? Eu não sou muito familiarizada com os personagens do Homem-Aranha.

JAKE: Sabe, não é tão simples, mas… nos quadrinhos o Mistério é um vilão, sim. Mas essa é outra abordagem bem interessante. Como a Marvel e a Sony, mas nesse caso em particular a Marvel, fazem com frequência, eu acho que elas vão te levar para um lugar que você não esperava.

KRISTA: Isso é bom, a animação, Spiderverse, que estreou é fantástica. Antes quando eu pensava que só o Tobey Maguire era o Homem-Aranha e aí depois o Andrew Garfield e agora o Tom Holland.

JAKE: Essa é a sensação de envelhecer.

KRISTA: Acontece rápido demais, eu fico pera aí nós já estamos… Você também quase já foi escolhido para ser o Homem-Aranha em algum momento?

JAKE: Eu acho que sim. Quer dizer, e você também?? Eu sinto que todos nós já fomos. Na verdade, eu acho que em um certo ponto nós todos desejamos ser o Homem-Aranha, então não importa mais no momento. Mas sim, digo, sim. Houveram diversas encarnações dessa história e eu me encontro nessa. E eu tenho que dizer que acho que o Tom Holland, o Homem-Aranha atual, o mais novo Homem-Aranha, é muito incrível. Eu acho que ele é perfeito para o papel, mas eu também acho que ele é um excelente ator.

KRISTA: Sim, ele é um ator muito bom e eu tenho que dizer, meus filhos amam os Vingadores, então eu já vi todos os Vingadores. E nós fomos ver o último Vingadores, em que foi muito brutal e eu fiquei “Ai meu deus. Uau, qual a mensagem aqui? Ok, só siga o fluxo” E aí no final com o Homem de Ferro, Robert Downey, que merece um Oscar todo ano pelo Homem de Ferro, o que ele faz com esse personagem.

JAKE: Verdade.

KRISTA: Ele é muito bom.

JAKE: É isso o que nós valorizamos. Quer dizer, essa é outra questão sobre o que nós damos valor. O que nós consideramos atuação. Eu sempre acho isso muito interessante.

KRISTA: Certo, mas eles fizeram aquela cena e então ele está desaparecendo e ele está olhando para ele, e eu comecei a chorar de verdade em um filme da Marvel, apenas pelo olhar do Tom Holland e aí você percebe que esses são atores muito bons, pois eles estão se conectando em um nível tão grande no meio de todo esse caos. A mãe está tipo fungando e os meus filhos estão olhando para mim mortificados. Mas sim, foi muito comovente.

JAKE: É Shakespeariano e eu acho que realmente acontece se você está trabalhando com um cineasta, os cineastas que estão fazendo esses filmes são absolutamente extraordinários. No caso de alguém como o John Watts que fez esse Homem-Aranha, ele nos deu um tremendo espaço e liberdade. Eu fiquei surpreso pois estando em alguns filmes grandes, eu sempre achei que eles tinham esse controle porque é grande, e não tinha nada disso. Foi tudo sobre explorar e tentar coisas e se divertir, e eu acho que toda essa energia realmente vai para o momento final para que por exemplo, um pai assistindo o filme, pode assistir e pensar “Esse é um momento real com pessoas que realmente acreditam nisso, pois permitiu-se que isso acontecesse, não foi fabricado.”

KRISTA: Mesmo em toda a sua grandeza.

JAKE: Sim, e tenho que dizer que isso me surpreendeu.

KRISTA: Bom, eu estou animada para ver vocês no filme.

JAKE: Obrigado.

KRISTA: E eu estou animada para ver Velvet Buzzsaw.

JAKE: Sim, em breve.

KRISTA: E eu vou para Nova Iorque e vou te ver. Quando que vocês começam?

JAKE: Nossa primeira amostra é dia primeiro de fevereiro.

KRISTA: E quanto tempo vai durar?

JAKE: Até 31 de março.

KRISTA: Ah, eu com certeza irei. Eu estarei lá em Março.

JAKE: Não é uma noite comprida.

KRISTA: Ótimo.

JAKE: Tranquilo, duas horas exatas.

KRISTA: Bom.

JAKE: 15 minutos de intervalo.

KRISTA: Entre os dois?

JAKE: Tem petiscos e bebidas. Boa companhia. Música boa, iluminação boa, cabelo bom.

KRISTA: Eu estou dentro. Cabelo bom, iluminação boa. Eu sou superficial, petiscos, quer dizer, qual é.

JAKE: É perfeito, você pode trazer petiscos para dentro do teatro. Eu acho, me desculpe, eu não tenho 100% de certeza. Você pode levar petiscos escondidos para o teatro se você quiser. Só não pode fazer muito barulho, porque é um pouco desagradável quando você é o único ator no palco e você está tentando lembrar suas falas e alguém está abrindo o pacote de um doce estranho.

KRISTA: Tipo remédio pra tosse.

JAKE: Sim, não faça isso.

KRISTA: A embalagem.

JAKE: Mas sim, ou faça isso mas saiba que nós podemos chamar sua atenção.


Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

Quando a produção de O Abutre, estreia como diretor do roteirista Dan Gilroy junto com Jake Gyllenhaal em sua fase de coque samurai, acabou em 2014, o cineasta virou para sua estrela e disse, “Nós não acabamos ainda.” Eles tinham outras histórias para contar.

Mais de três anos depois, a dupla se reuniu com a atriz Rene Russo e com o diretor de fotografia Robert Elswit em Velvet Buzzsaw, trocando a atmosfera obscura e sombria dos caçadores noturnos de ambulância pelos campos chiques da cena da arte contemporânea de Los Angeles. É um mundo em que ex artistas punks investiram na máquina capitalista e se tornaram ilustres donos de galerias (como Rhodora Haze interpretada por Russo) e críticos que exalam falas dramáticas como, “A crítica é tão limitadora e emocionalmente exaustiva” (Como o sofisticado Morf Vandewalt de Jake Gyllenhaal).

Todos aparentam ser moralmente comprometidos e procurando fazer dinheiro – mesmo que esse dinheiro venha da venda de quadros demoníacos que matam pessoas. Pense como se “Moça Com o Brinco de Pérola” pudesse saltar da moldura e te estrangular com o xale ou se uma peça do Bansky retalhasse os espectadores ao invés de a si mesmo. “Eu não conseguiria viver com arte porque ela é tão poderosa,” disse Russo, em conversa com a EW no telefone duas semanas antes da grande estreia do filme no Sundance.

É um conceito, de acordo com ela, que brinca com a ideia de que “se os artistas pudessem se vingar,” quer isso seja contra o sistema esmagador de almas e esfomeado por dinheiro que cerca a maioria das formas de arte ou contra os críticos alegremente destruindo o trabalho de uma vida de alguém. Com uma risada divertida, Russo diz, “Isso poderia ser divertido!”

Gyllenhaal menciona como o “processo criativo do Dan Gilroy é bem privado,” mas ele sabia que o cineasta, novamente, escreveu os papéis principais especificamente para suas estrelas de O Abutre. Russo, que está casada com Gilroy por aproximadamente 27 anos, diz que ela normalmente lê os roteiros dele enquanto ele os escreve. Mas não o de Velvet Buzzsaw. “Dessa vez ele só me deu quando estava pronto, e eu pensei que era maluquice porque ele é assim. Dany é uma viagem.”

Bem antes da estreia de Roman J. Israel, Esq. de Gilroy, seu segundo filme, o ex-morador da Costa Leste fez uma viagem até o museu Dia:Beacon no interior de Nova York. (Aceite as palavras de Russo sobre – “É um lugar bizarro.”) Essa excursão cultural o ajudou a formar a estrutura geral de Velvet Buzzsaw: um artista recluso morre em seu apartamento, deixando para trás uma carreira inteira de arte. Apesar de seus desejos de queimar as peças, a assistente de Rhodora, Josephina (Zawe Ashton de Animais Noturnos) dá um golpe e as vende para sua clientela de elite – sem saber que os demônios pessoais do artistas estão meio que literalmente ligadas às pinturas.

“Nós queríamos construir um mundo acreditável, habitado por personagens acreditáveis, lidando com eventos inacreditáveis,” Gilroy explica. “Depois olhamos, vendo os diversos tons, de O bebê de Rosemary e O Exorcista, e ficamos intrigados com a ideia, de estabelecer um tom no começo com coisas que são críveis e acreditáveis, depois quando o inacreditável começa a acontecer ele se torna mais poderoso” – como quando uma exibição esférica cara vai de uma experiência sensual a uma armadilha de morte.

Como a arte em si, por detrás da tinta do roteiro está uma camada da fundação baseada nas dificuldades “bastante pessoais” de Gilroy com Hollywood.

Ele menciona especificamente a vez que tentou fazer Superman Lives nos anos 90. Nicolas Cage era cotado para interpretar o Homem de Aço para o diretor Tim Burton, mas a Warner Bros. deu fim ao processo duas semanas antes do início das filmagens “porque o orçamento estava muito salgado.” Esse era o maior medo de Gilroy se tornando realidade. Abalado, se dirigiu até a praia de Santa Monica onde lamentou o equivalente a um ano e meio de histórias que nunca seriam ouvidas.

“De repente eu pensei ‘Não importa. Eu estou criando algo tanto para mim quanto para outras pessoas e eu trabalhei com pessoas que apreciaram e viram o que eu fiz e eu tive a chance de criar,’” lembra Gilroy. “Eu jurei a mim mesmo que um dos preceitos que eu iria seguir era que não importava, no final, o número de pessoas que assistiram ou o nível de sucesso comercial. [Arte é] algo que crio para mim mesmo. Eu preciso criar algo que é relevante para mim e que carrega alguma visão de mundo que as pessoas possam se identificar com.” (Uma cena de Velvet Buzzsaw com John Malkovich é tirada diretamente dessa experiência.)

Quando ele havia terminado Roman J. Israel, o diretor tinha um roteiro na mão de suas estrelas. “Ele notoriamente não manda nada a mim. Ele entrega pessoalmente,” diz Gyllenhaal. “Ele me deu uma cópia capa dura, uma cópia linda encadernada de Velvet Buzzsaw e eu a li assim que eu abri a embalagem.”

Após interpretar um psicopata que documenta cenas de crime para as agências do noticiário local, Gyllenhaal ficou envolvido com o personagem de Morf. Como o nome sugere, “ele está morfando o tempo todo – sua identidade, suas opiniões, sua atração,” o ator explica. O crítico de arte sexualmente fluído, que acaba envolvido com uma mulher após seu término com um homem, menciona à Josephina, “Nós temos um relacionamento de gostos.”

Enquanto Gyllenhaal “nunca mudou uma palavra do que estava escrito,” Gilroy diz que “a história por trás, o olhar, cada traço do personagem foi algo que o Jake inventou sozinho.” Assim como foi decisão de Gyllenhaal ter um coque samurai em O Abutre, seu corte de cabelo no estilo “Romano” em Velvet Buzzsaw foi parcialmente ideia do ator enquanto ele e Gilroy “estavam morrendo histericamente” discutindo sobre no banheiro. Os óculos vieram do artista de maquiagem do filme Donald Mowat (“Esses são óculos dele,” Gyllenhaal exclamou) e a fisicalidade veio, em partes, de Marlon Brando depois que Gilroy exibiu um clipe do protagonista de O Poderoso Chefão no The Ed Sullivan Show.

“Brando é alguém que obviamente foi sexualizado e era fascinante como resultado disso,” diz Gyllenhaal. “E desde então descobrimos muito sobre sua própria identidade e ele está desafiando limites em todos os lugares, e mesmo assim ele é uma das nossas [mais tradicionais] estrelas masculinas clássicas e então acho que olhamos para o Morf desse jeito.”

Russo, admitidamente, não está procurando sua próxima performance. “Se fosse como eu quero, eu andaria pelo meu jardim, eu limparia meu armário, eu leria, eu assistiria documentários,” a estrela de filmes como Garra de Campeões e Thomas Crown – A Arte do Crime diz. “Eu não trabalharia de maneira alguma. É estressante. E eu odeio me levantar de manhã!” (À isso nós dizemos, “Amém!”). Mas com Gilroy a alimentando com roteiros, ela encontra oportunidades raras.

“Eu tive uma ótima carreira, não me entenda errado,” ela esclarece. “Tem sido maravilhoso, e eu não posso reclamar, mas também não posso dizer que sinto que não tivesse tido personagens o suficiente que eu poderia me doar. E daí, do nada, quando você menos espera, a vida só deixa um presente no seu colo.”

Rhodora, para ela, foi “uma viagem.” Russo elabora, “A Rhodora não é fácil e eu realmente tenho que pensar sobre isso porque pra mim ela foi uma pessoa complexa. Eu tenho um ditado no meu quadro aqui [na casa na Califórnia dela] que diz ‘Seja gentil já que todos que você conhece estão enfrentando uma batalha’… Eu sempre penso assim: Qual é a batalha dessa pessoa? A batalha da Rhodora vem do passado dela como artista anarquista, por isso as tatuagens que espiam das elegantes vestimentas aprovadas por Anna Wintour. Agora, sua preocupação está em vender o maior número daquelas pinturas demoníacas que conseguir. Não importa que corpos estejam se acumulando. Como um dos amigos que estão na indústria dizem, ‘É um grande sucesso.’

A nova história parece uma continuação espiritual do que Gilroy explorou em O Abutre – (palavras de quem está escrevendo, não do Gilroy) – já que sua excursão como iniciante desenvolveu o conflito entre o jornalismo antiético e a demanda do consumidor por notícias tenebrosas disfarçadas de entretenimento.

“Em Velvet Buzzsaw, quero explorar a relação entre arte e comércio nos dias de hoje… e é uma relação desconfortável em múltiplas áreas do entretenimento,” diz Gilroy. “Eu sinto que a qualidade de um trabalho não deveria ser julgada pelo volume de interações nas mídias sociais ou o número de visualizações ou cliques recebidos ou pela quantia que se foi paga por ele. Isso não significa que o sucesso comercial diminui um trabalho; porque não diminui, mas eu acredito que não o define também.”

O diretor adiciona como pensamento final: “Estou dizendo em Velvet Buzzsaw que a arte é mais do que uma mercadoria e não nos esqueçamos disso.” Se pelo menos seus personagens percebessem isso antes de vender a próxima obra de arte assassina.

Velvet Buzzsaw teve sua estreia na Netflix na sexta-feira.


Fonte: Entertainment Weekly
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil