Jake Gyllenhaal conversou com o El País sobre redescobrir o que importa de verdade, Donnie Darko, que conselho daria ao seu eu mais jovem e mais. Confira:

Jake Gyllenhaal está aprendendo a abraçar o momento. “A natureza sempre foi um lugar de descanso para mim e é cada vez mais”, afirma. “Antes da pandemia estive muito ocupado e não tinha tempo para me conectar com ela. Uma das coisas mais incríveis do último um ano e meio é que tem muito mais pássaro. Ou talvez agora eu presto mais atenção para ouvi-los. O que eu adoro na campanha de Luna Rossa Ocean é que invoca o poder da natureza e o respeito pela natureza”, fala sobre o novo perfume da Prada, Luna Rossa Ocean, Jake Gyllenhaal, em cuja campanha segura o leme do barco para enfrentar uma tempestade. O ator se propôs a fazer o mesmo na sua vida pessoal. Agora está, como o final do comercial, indo para o desconhecido: durante o último um ano e meio tem aproveitado para se reconectar com a natureza e consigo mesmo.

Jake Gyllenhaal foi pego pela pandemia em um momento chave de sua vida: havia decidido começar a se divertir com seu trabalho. Após o decepcionante Príncipe da Pérsia (Mike Newell, 2010), foi se deixando seduzir pelo método e pelos papéis encadeados pelos quais se submetia ao sofrimento físico, mental e emocional. Em questão de meses, perdeu 15 quilos para interpretar o repórter sociopata de O Abutre (Dan Gilroy, 2014), ele ganhou e acrescentou mais 15 de puro músculo para fazer o boxeador de Nocaute (Antoine Fuqua, 2015). Em três anos filmou oito filmes.

Mas depois de produzir e estrelar Stronger (David Gordon Green, 2017), inspirado na história real de um homem que perdeu as pernas no atentado da maratona de Boston em 2013, Gyllenhaal estava tão determinado a experimentar a realidade do seu personagem que percebeu que estava levando muito a sério. “Acho que fui longe demais, ao extremo”, refletiu ele em fevereiro de 2020. “Queria que o filme fosse excelente e fiz tudo o que pude para fazer justiça a história. Lutei muito para que as pessoas vissem, mas eu não tive a resposta que queria e depois me perguntei ‘Mas o que estou fazendo? Por que estou me esforçando tanto?’ Não posso fingir essas coisas. Nunca vou ser capaz de representar a experiência real. Alguém me disse que eu havia perdido a capacidade de imaginar, e que diabos é a interpretação sem imaginação? Foi assim que eu decidi começar a me divertir um pouco”. Sua primeira iniciativa foi organizar a cada domingo um almoço com seus amigos e sua família em sua casa: algo tão comum para qualquer pessoa era extraordinário para Jake Gyllenhaal.

O roteiro de Homem-Aranha: Longe de Casa (Jon Watts, 2019) veio a ele para esse novo estado mental. Sua amizade com o intérprete de Peter Parker, Tom Holland, e as demonstrações de afeto durante a promoção do blockbuster da Marvel causaram sensação na internet. Gyllenhaal até se atreveu a abrir uma conta no Instagram. “Agora os atores são obrigados a iniciar suas carreiras nas redes sociais. Eu não cresci com isso. Mas parecia incrível ver o Tom interagindo com seu público, eu aprendia com ele e pedia conselhos. O que eu gosto nele é que está decidido entender o ofício da interpretação. Acho que a profissão está cada vez mais perdida na busca por fama e celebridade. Eu sei que parte da insegurança de ser um ator envolve querer atenção, mas você precisa de uma caixa de ferramentas para seguir em frente. Comecei muito jovem e, embora você possa usar o instinto por um tempo, mais cedo ou mais tarde você precisa de um emprego”, explica.

Gyllenhaal debutou no cinema aos 10 anos, na comédia City Slickers (Ron Underwood, 1991), na qual resultou naturalmente para um filho de Hollywood cujos os padrinhos são Paul Newman e Jamie Lee Curtis. Os Gyllenhaal eram a aristocracia cultural em Los Angeles (alguém os definiu como os Kardashians intelectuais) tão rigorosos na formação acadêmica dos seus filhos Jake e Maggie que quando o menino teve a oportunidade de participar do filme da Disney The Mighty Ducks seus pais proibiram porque as filmagens o obrigaria a perder dois meses de escola. Quando tinha 13 anos, Jake celebrou seu Bar Mitzvah ajudando com um abrigo para moradores de rua.

Hoje ele é grato aos pais porque quando ele era criança eles se esforçaram para proteger uma sensibilidade especial, tão delicada que alguém uma vez lhe disse que era “um capacho”. Mas com a maturidade o ator endureceu e hoje reflete sobre certas qualidades que estava perdendo (“algo precioso que sumiu”) e nos anos que passou sendo uma pessoa “não resolvida” procurando coisas fora de si. Especificamente, buscando vivenciá-los por meio de seus personagens.

O ator reconheceu que durante muitos anos sua vida esteve guiada por sua ambição profissional. No ano passado, David Fincher, quem o dirigiu em Zodíaco de 2007, contou para o The New York Times que aquela filmagem coincidiu com o lançamentos de Gyllenhaal (com estreias consecutivas de A Prova, Soldado Anônimo e O Segredo de Brokeback Mountain) e que é impossível se concentrar para um papel de introspecção psicológica quando você tem um camarim cheio de pessoas falando com você “sobre sua próxima capa da GQ.”

Precisamente antes da pandemia, Gyllenhaal estava prestes a lançar um musical que reflete sobre a vida dos artistas, a fama e como a ambição excessiva pode obstruir a felicidade pessoal. O enredo de Sunday in the Park with George, um clássico da Broadway pelo qual Stephen Sondheim ganhou o Pulitzer em 1985, faz uma ligação de forma assombrosa com a vida de Gyllenhaal. Sua história se divide em dois atos. No primeiro, o pintor pontilhista George Seurat fica obcecado em criar sua obra-prima a ponto de deixar de lado completamente a sua vida pessoal. O segundo ato é protagonizado por um descendente de Seurat, também chamado George, que é um artista, tem prestígio e ganha muito dinheiro, mas não chega a ser um artista que transcende a passagem do tempo e das gerações. Finalmente, o segundo George entende, nas palavras de Gyllenhaal, que “sua melhor criação é sua vida pessoal”. Ele interpretou os dois personagens.

Cada noite, durante os ensaios, o ator viajava de George em George e talvez sentisse um paralelo com sua própria jornada: depois de muitos anos priorizando seu trabalho sobre sua vida pessoal, Gyllenhaal também acabou entendendo que sua melhor criação é sua vida pessoal. “Acredito que minhas prioridades mudaram em muitos sentidos. Se eu não tivesse feito, teria um problema sério”, confessa. “Grande parte da minha vida foi dedicada ao trabalho contínuo e em parte isso veio do medo de ficar sozinho comigo mesmo. É verdade que parte do meu trabalho tem sido explorar diferentes aspectos de mim mesmo, mas é menos arriscado [explorar a si mesmo] através do trabalho do que fazê-lo em minha vida pessoal”.

Uma das explorações girou em torno da masculinidade. O ator explicou que, como parte dessa investigação, passou a abordar personagens de virilidade extrema e estereotipada. “Passei anos tentando entender o que é [masculinidade]”, contou ele no ano passado. “Filme após filme, experiência após experiência, chegando a certos extremos como: ‘É no plano físico? É um homem com uma arma? É um homem que entra em um ringue de boxe? É um homem que se apaixona por outro homem?”. Agora ele parece decidido a transferir essa pesquisa para sua vida pessoal e deixar de fazer isso por meio de seus personagens. Deixar de, como ele mesmo disse, “se esconder” atrás desses personagens. “Esse último ano me obrigou a estar presente na minha própria vida e o que descobri é que as recompensas são muito maiores. E acho que passarei o resto da minha vida me dedicando mais a minha vida do que ao meu trabalho e isso provavelmente vai influenciar meu trabalho para melhor”, diz ele.

No começo do ano, o ator comemorou em seu Instagram o 20° aniversário do filme que o tornou um ator cult e uma estrela em ascenção, Donnie Darko (Richard Kelly, 2001). Gyllenhaal agradeceu a todas as pessoas que nas últimas duas décadas o pararam para perguntar “O que diabos Donnie Darko estava fazendo?” “O que Donnie disse a Roberta Sparrow [personagem do filme] segue sendo verdade”, concluiu. “Há muitas coisas que estão por vir que valem a pena”, mas com a sugestão de não olhar para frente, mas para trás, Gyllenhaal fica pensativo por vários segundos. O que você diria a si mesmo se pudesse dar algum conselho no primeiro dia de filmagem?

“Quando comecei essa experiência, estava em uma situação difícil”, ele finalmente começa, “eu era um garoto enfrentando suas próprias emoções e seus próprios problemas, e aquele personagem me permitiu expressar minha ansiedade e meu medo. Acho que eu diria ao meu eu mais jovem: ‘Vai ficar tudo bem. Você vai se sair bem. Não tem que interpretar tanto a si mesmo'”. Gyllenhaal ri com timidez diante dessa última revelação, como se estivesse surpreso ao escutá-la. Mas, longe de se limitar, ele continua seu diálogo imaginário consigo mesmo. “‘Você pode ser apenas você mesmo. Sei que não te deixo dormir a noite, sei que está assustado de muitas maneiras, mas vai ser ótimo para você…'”. De repente, ele para de falar e volta ao presente: “Eu mataria para poder falar com aquele garoto…Mas provavelmente ele não me escutaria”.


Fonte: El País
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

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