O público aos prantos foi uma cena comum durante as nove semanas de exibição de Sea Wall/A Life ano passado na Broadway, as peças solo de um ato estrelando, respectivamente, Tom Sturridge e Jake Gyllenhaal. Dirigido por Carrie Cracknell, as peças – conectadas apenas pelo tema de pesar impensável e a possibilidade de esperança por um fio – foram a combinação para uma noite poderosa de teatro, ganhando resenhas críticas e casas lotadas, recuperando seu investimento de $2,8 milhões apenas dois meses depois sua estreia em agosto de 2019 no teatro Hudson.

Grande parte do sucesso da produção, comercial e artisticamente, foi graças ao elenco. Dois atores com nomes conhecidos em Hollywood e com experiência na Broadway, Gyllenhaal e Sturridge, sob a direção eloquente e imaculadamente detalhada de Cracknell, deram performances que doem na alma.

Sturridge sobe ao palco primeiro, escalando o quebra-mar que deu nome a sua peça. Escrita pelo dramaturgo Simon Stephens (Punk Rock, The Curious Incident of the Dog in the Night-Time), a peça traz Sturridge como Alex, um doce britânico de vinte e poucos anos, pasmo com a perda de sua amada filha e o que pode ou não ser o colapso de seu casamento.

Em seguida, temos Gyllenhaal em A Life de Nick Payne. Falando diretamente ao público, como Sturridge havia feito antes dele, Gyllenhaal interpreta Abe, um homem preso entre a tristeza do recente falecimento de seu pai e o deslumbre pelo nascimento de sua filha. Ambas as perspectivas – vida sem ele, vida com ela – aterrorizam Abe antes de fortalecê-lo.

Desde outubro do ano passado, quando Sea Wall/A Life finalizou sua exibição, tudo mudou. O Deadline pediu a Gyllenhaal, Sturridge e Cracknell para refletirem sobre seu show – uma das 18 produções da Broadway elegíveis para as próximas indicações ao Tony Award – e o que ele oferecia ao público, e imaginar o que poderiam dizer ao público neste momento doloroso. Eles compartilharam o que mais sentem falta sobre o teatro e o que cada um espera fazer, talvez mais cedo do que você imagina.

A conversa foi editada e condensada para maior clareza e duração.

DEADLINE: Jake, você na verdade teve duas novas produções na Broadway ano passado – você foi um produtor em Slave Play. Geralmente você teria a chance de se reconectar com todo mundo na primavera por causa do Tony Awards e toda a loucura e festas que acontecem com ele. Quão decepcionante está sendo esse ano?

JAKE GYLLENHAAL: Eu acho que foi tão prolongado. Todos na Broadway são guerreiros, então todos estavam prontos pra seguir em frente e continuar até que fomos forçados a parar. Eu não conheço nenhum outro ramo que trabalhe tão arduamente e que continue a trabalhar em quase qualquer circunstância, e realmente só foi interrompido por esta pandemia. Então, para mim, sempre houve esse ímpeto [de avanço] na Broadway para não prestar atenção ao que um dia já foi, e agora ficamos sem nada que possamos dizer com confiança sobre o futuro. Então, estamos olhando para trás e nos sentindo nostálgicos. Há muito para se sentir falta em relação ao encontro e as pessoas, seja estar nas festas para o Tony Awards ou as apresentações, e é disso que sinto tanta falta.

Houve inúmeras vezes durante esse período onde me senti muito grato por ser um artista, muito grato por ter o trabalho de contar histórias, mesmo que não seja possível fazê-lo no momento. Nunca me senti tão grato por ter isso como meu trabalho e por compreender seu poder pela falta de oportunidade de fazê-lo. Também vou dizer, acho que agora é um tempo onde há todo esse desenvolvimento e os artistas estão se juntando. Tem gente com quem eu queria falar e nunca teria conseguido, mas todo mundo está conversando, sabe? Ideias estão sendo trocadas e coisas novas estão acontecendo e coisas que eu realmente achei que queria fazer caíram no esquecimento e novas coisas surgiram que realmente parecem muito mais profundas e próximas do meu coração.

DEADLINE: É possível ter uma conexão real através do Zoom?

GYLLENHAAL: Acho que quanto mais você valoriza essas interações, mais você vai lutar por elas, e a luta acontece ao tentar praticar a paciência e tentar se encaixar em um espaço onde parece certo esperar, porque se você realmente valoriza o teatro acho que vale a pena esperar. Qualquer filosofia de teatro diz que não é apenas a experiência de assistir a apresentação, é a semana seguinte, é a semana anterior, é a experiência de comprar os ingressos, a coisa toda. Eu acho que a catarse que sentiremos, o orgulho que sentiremos, a empolgação que sentiremos será dez vezes maior por causa do tanto que o público esperou por esta experiência. Falando por mim, minha experiência de teatro ainda está acontecendo enquanto espero por ela.

DEADLINE: Quão difícil é planejar agora o que vocês farão a seguir, principalmente no teatro?

GYLLENHAAL: Eu estava indo para Londres [quando tudo foi suspenso] para fazer Sunday in the Park with George no West End e nós tivemos que adiar a apresentação, que foi adiada um ano e ainda temos toda intenção de fazê-la. E então eu estou planejando umas coisas bem divertidas que não posso falar sobre mas que espero que aconteçam logo após o ano novo, e que seria feito com segurança. Por mais que eu fale sobre paciência, ainda tenho que trabalhar nisso e estou tentando colocar as coisas, com sorte, para fevereiro/março, mas com segurança. Então há planos de fazer um certo tipo de performance ao vivo, é a melhor maneira que eu poderia dizer. Não sei se vou ficar bem com isso – fazer uma apresentação apenas com nós e mais ninguém.

DEADLINE: Existem planos para vocês três trabalharem juntos novamente? Sei que vocês fizeram um audiolivro do Audible para Sea Wall/A Life, mas tem alguma conversa sobre filmar ou interpretá-la novamente?

GYLLENHAAL: Foi uma combinação tão improvável de pessoas, de palavras, e aconteceu da maneira afortunada que foi, e por falta de uma palavra melhor, mágica. Não acho que sentimos que tudo acabou e acho que há algo especial e lamento falar por todos nós, mas minha observação é que estamos todos prontos para qualquer coisa. Eu faria qualquer coisa com esse grupo novamente, incluindo Sea Wall/A Life, que talvez apareça em uma encarnação diferente. E se talvez nunca acontecer de novo, acho que todos ficaríamos, tipo, ok, é assim que deve acontecer. Mas me recuso a não trabalhar com esses dois nunca mais.

DEADLINE: Então vocês estariam abertos a uma versão cinematográfica?

GYLLENHAAL: Se nós fôssemos fazer isso seria interessante ver o que esse material inspiraria nos autores e a forma como Carrie o vê e ver se talvez ela extraia uma ideia totalmente nova do que era, e talvez nem mesmo apenas a coisa em si, mas uma nova criação, quase como uma espécie de sequência ou algo assim. Quer dizer, eu anseio por isso. Acho que é provavelmente terrível para mim dizer isso, mas durante esse tempo eu tenho ansiado por encontrar gravações de produções que encerraram antes que eu pudesse vê-las, sabe? Para ouvir aquelas vozes cantando e ver algumas dessas apresentações, mesmo que tenham sido mal filmadas. Não podemos ir aos arquivos do Lincoln Center todos juntos, sabe? Eu realmente gostaria que pudéssemos continuar a exibir Slave Play agora. Eu gostaria que as pessoas pudessem ter essa experiência porque é muito visionária e acho que é muito importante. Sea Wall/A Life também. Tematicamente, é sobre luto e comunicação e sobre ser aberto e vulnerável nos momentos em que estamos apavorados e como é difícil amar e estar vivo.


Fonte: Deadline
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

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