Ao longo de sua carreira, Jake Gyllenhaal tem sido um ator conhecido pela sua dedicação pela arte. Mas, chegando perto dos 40 anos, trabalho está começando a importar menos do que uma vida bem vivida, ele conta para Olivia Marks.

“Já consigo ver isso na revista,” brinca Jake Gyllenhaal. Com um sorriso largo, semelhante à de um filhote, ele está carregando dois copos de papel com água quente escaldante e uma caixa de chá PG Tips, debaixo do braço, do set da sessão de fotos com a Vogue para sua entrevista. E enquanto eu odeio ser uma repórter previsível… bom, aqui estamos nós. É uma cena tão improvável – a estrela de Hollywood fazendo ele mesmo uma xícara de chá (dois saquinhos de chá, sem leite, admitindo que, na verdade, ele preferiria a marca Yorkshire Gold) em um estúdio de fotos espaçoso no centro de Manhattan. Mas daí, Gyllenhaal insiste que é “tão britânico quando um americano pode ser.”

Sem ficar muito presa nas minúcias das habilidades de fazer chá dele (sem leite?), é verdade que o ator de 39 anos é meio que um admirador da Inglaterra. Ele fez sua estreia profissional no teatro no Garrick de Londres lá em 2002, com 21 anos, em This Is Our Youth (que também contam com Anna Paquin e Hayden Christensen). “Eu tive essa sensação de estar entre pessoas que olhavam para as coisas do mesmo jeito que eu olhava,” ele me conta da experiência, passando a mão pelo seu cabelo de príncipe da Disney, uma leve rouquidão em sua voz.

Desde então, ele passou “cinco ou seis anos somados” na capital, vivendo em vários lugares desde o leste de Londres até Notting Hill. Ele adora o Hampstead Heath – “eu acho que não existe nenhum outro lugar no mundo como esse” – e frequentemente se cerca de britânicos (ele recentemente terminou uma temporada na Broadway de Sea Wall/A Life com o ator Tom Sturridge e com a diretora Carrie Cracknell). Ah, e ele quer que seja sabido que sua etiqueta no teatro está em dia. Diferente de seus colegas americanos, ele odeia ir para o backstage após a peça. E, “eu não aplaudo quando os atores vão até o palco.”

Até então, bem britânico. O seu senso de humor é deliciosamente seco, também – mais seco do que alguém poderia esperar vindo de um ator que, ao longo de uma extensa carreira, ficou conhecido por possuir um certo comportamento sério e seriedade pelo trabalho. Eu não previa, por exemplo, a longa conversa que tivemos sobre a impraticabilidade de macacões ao ir ao banheiro (“Nós divagamos,” ele diz. “Ou não?”), ou o fato dele fixar com aqueles olhos famosos (meu deus, aqueles olhos azuis gelo, olhos claros) e perguntar se eu gostaria de um pequeno papel no seu novo show.

Deixa eu te contar, sentar em um banco lado a lado com o Jake Gyllenhaal na deslumbrante luz do sol, discutindo se eu deveria ou não interpretar uma crítica de arte chamada Blair na peça de Stephen Sondheim e James Lapine, Sunday in the Park with George – a qual ele irá estrear no Savoy Theatre em Londres em junho – é um deleite surreal. (Essa conversa ocorreu, claro, antes de um ponto de interrogação ter sido colocado sobre quando nossos teatros vão abrir.) “Ele entra em cena e diz [ele faz uma voz feminina sem ar], ‘George, Chromolume número sete.’ Você deveria entrar só no lugar de um convidado, sim? Ok!” O charme dele é tão grande, por um segundo eu fico tentada a aceitar.

Gyllenhaal irá esperançosamente reprisar seu papel como Georges Seurat, o pintor pontilista francês do século 19, no qual o musical ganhador do Prêmio Pulitzer é baseado. Realizado pela primeira vez em 1984, e lidando com amor, arte e conexão humana, é um espetáculo de duas metades distintas. A primeira segue um Seurat focado enquanto tenta completar sua obra de arte, A Sunday Afternoon on the Island of La Grande Jatte, ignorando suas muitas críticas, assim como Dot, sua amante e musa (interpretada por Annaleigh Ashford), no processo. A segunda retrata um tetraneto fictício de Seurat – também chamado George, e também interpretado por Jake – que é um artista na América dos dias atuais, e é igualmente obcecado com seu trabalho custando sua vida pessoal.

A peça chegou ao Gyllenhaal pela primeira vez em 2016, quando pediram que ele cantasse alguns dos números musicais para um espetáculo em Nova York. O breve show foi um sucesso, então quando, um pouco depois, um teatro em Broadway ficou disponível por alguns meses, ele sugeriu que eles levassem pros palcos. As críticas foram de brilhar, Jake uma revelação. (Ele me conta, adequadamente orgulhoso, “Foi realmente maravilhoso.”)

“Eu amo atuar em filme eu tive muita sorte,” ele diz, “mas eu realmente me sinto em casa quando estou atuando e cantando simultaneamente. Tem sido deste jeito desde que eu era muito novo.” Mesmo assim teatro musical não é, eu sugiro, onde as pessoas o imaginam. Sunday não é nenhum melzinho na chupeta, mas sim uma trilha notoriamente difícil de ser cantada. “Eu sou muito interessado em saber onde eles me colocam,” ele ri. “Eu tentei fugir desses lugares minha vida inteira.”

Nascido e criado em Los Angeles, ele curtia algo de uma infância dourada como parte de uma família liberal no ramo do show-business. Seus pais – diretor Stephen Gyllenhaal e roteirista Naomi Foner (agora divorciados) – contavam com Jamie Lee Curtis e o agora falecido Paul Newman como amigos próximos (Gyllenhaal conhece eles como padrinhos). A mãe dele é “profundamente feminista”, e Jake cresceu “em um mundo com minha mãe organizando jantares em casa com grupos feministas e mulheres muito poderosas na política e em Hollywood”. Ela suplementou a dieta dele de filmes do Spielberg com filmes do Ken Loach, o que explica muita coisa. Agora ele mora em Nova York, perto de sua irmã atriz Maggie e de um círculo próximo de amigos, alguns que ele conheceu na escola, outros, como Sturridge – “forte, tão inteligente, engraçado” – ele colheu ao longo do caminho.

É verdade que ele é um ator que evitou classificações – profissionalmente e pessoalmente. Ele deu o tom com a película indie cult Donnie Darko, o papel que o deixou conhecido, em que ele interpretava o jovem torturado que dá nome ao filme. Quatro anos depois, ele ganhou um Bafta por seu trabalho excepcional ao lado de Heath Ledger no marco de carreira de Ang Lee, O Segredo de Brokeback Mountain, antes de interpretar um fuzileiro naval americano no filme Soldado Anônimo de Sam Mendes e um caçador de assassinos em série para David Fincher em seu filme Zodíaco. Ele tem uma reputação de ir a fundo com suas preparações. Para O Abutre de 2014, ele perdeu 13kg e mal dormiu para se transformar no rígido malandro, mas ele correu 24km por noite para interpretar o campeão de boxe em Nocaute. Quando, em 2017, ele interpretou Jeff Bauman em O que te faz mais forte, um homem que perdeu as pernas no bombardeio da maratona de Boston, os dois conversaram todos os dias por meses.

Enquanto ele ainda tem que começar a praticar pontilhismo, ele disse que consegue facilmente se identificar com a mentalidade do Seurat, um artista consumido pelo trabalho acima de tudo. “Sim, eu me identifico com isso profundamente,” ele explica sinceramente. “Essa é a dificuldade o tempo todo.” Mas algo mudou nos últimos anos. “Estou interessado na minha vida, até mais do que em meu trabalho. Eu alcancei um ponto na minha carreira em que eu estou com fome por outas coisas. Eu vi o quanto da minha vida eu negligenciei como resultado de estar comprometido com aquele trabalho e com aquela ideia.”

Basicamente, ele se iluminou. Uma parte disso tem a ver com idade, “ver a vida como algo que é, sabe, passageiro, e o mundo estando como está agora. Eu me voltei para a minha fala, me voltei para meus amigos e me voltei para o amor. Eu estou um pouco menos interessado no trabalho, eu diria, e mais interessado nisso.”

Parece que interpretar um artista neurótico foi transformador. Ele concorda, especialmente na maneira que o fez olhar para seu futuro. O George do Segundo Ato, ele diz, experiencia sucesso financeiro e de crítica, mas nunca teve uma família. Ele recita sua frase favorita da peça: “Tudo o que você fizer, deixe que venha de você. E então será novo. Nos mostre mais.” Faz ele pensar no “ato de fazer amor para fazer uma criança… a coisa real é vida. Você chega no final da peça e é sobre isso que ela é. Crianças. Crianças e arte.”

Você vê crianças no seu futuro, eu pergunto? “Sim, claro que eu vejo”, ele responde. “Eu definitivamente vejo. Eu acho que essa é provavelmente a razão de eu ver o final da peça do jeito que eu vejo. Eu sei que é por causa disso que eu vejo o final da peça do jeito que eu vejo.”

“Eu não sou alguém que alguma vez existiu em um espaço onde eu realmente soubesse o que viria a seguir,” ele diz. “Mas você tem que estar aberto a isso. E não houve nenhuma outra época na minha vida que eu possa seguramente dizer que…” ele arrasta a fala, mas fica claro para onde ele estava indo. Gyllenhaal é conhecido por ser fantasticamente privado, e seus relacionamentos passados com mulheres de alto nível – Kirsten Dunst e Reese Witherspoon entre elas – tem sido bom, se frequentemente de maneira errada, documentados. Há dois anos ele está em um relacionamento com a modelo francesa Jeanne Cadieu e, enquanto se aproxima dos 40 anos, claramente família está em sua mente.

Mas de novo, ele sempre foi muito próximo de sua própria família. “Eu fui criado por um pai maravilhoso que sempre foi carinhoso,” ele diz. “Minha mãe e minha irmã são umas das pessoas mais extraordinárias que eu conheço. Nossa vulnerabilidade um com outro, nossa habilidade de comunicar sobre como as coisas podem estar sendo difíceis são as coisas de que mais me orgulho de minha família. De tudo que eu espero passar pra frente, essas são as mais importantes. Minha mãe sempre dizia que ela me via como um certo tipo de criança e que ela queria proteger isso. E confessadamente, mesmo que eles tenham errado algumas coisas, eles passaram um bom tempo protegendo essa coisa, essa sensibilidade, eu acho. Eu sou grato por isso.”

Ele está contente que homens estão encontrando um jeito de serem mais vulneráveis, também. “É muito importante que estejamos representando homens de maneiras diferentes em filmes, na arte. Eu lembro de ser muito jovem, muito sensível, e me disseram que eu era um capacho.” Ele ri incrédulo. “Eu acho que o que eles estavam tentando dizer, que está cheio de suas pequenas complicações interessantes, é que eu me importava. E as coisas me afetavam. Que potencialmente eu não seria alguém que você imaginaria pulando de um teto para um prédio em chamas. Mas eu não acredito nisso. Quando eu fiz Soldado Anônimo, o escritor William Broyles me disse, ‘Você é igual muitos dos caras que serviram comigo.’ Eu acho que é importante perpetuar isso na contação de histórias.” Ele pausa, antes de brincar: “Ao mesmo tempo, isso pode só ser eu tentando conseguir mais empregos.”

Ele tem uma rede de amigos forte – dê uma olhada no Instagram dele e você achará fotos do Tom Holland e do Ryan Reynolds com hashtags como #MetaDeMarido e #dianacionaldomelhoramigo. E quando lhe digo que ele é sortudo e incomum, como homem já na casa dos trinta, ter relacionamentos tão sólidos, ele visivelmente se emociona. “Você está fazendo eu me sentir muito emotivo sobre meus amigos,” ele diz, docemente. “Essas amizades masculinas são muito importantes para mim.” Bom, eu digo, não tem nada mais legal do que saber que temos nossas pessoas. “Nós estamos todos desesperados por isso, não estamos?” ele diz, olhando para mim com aqueles olhos que buscam por algo. E eu acho que ele está certo: tudo o que realmente importa é amor e arte e conexão humana.


Fonte: Vogue Britânica
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

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