Perdas, tanto do inimaginável quanto de variedades tristemente rotineiras, fomentam o par de atos que tem sua estreia em Nova Iorque no Public Theater. Apresentando Jake Gyllenhaal e Tom Sturridge, Sea Wall/A Life é composta de monólogos tematicamente interligados narrados por jovens homens contando suas experiências ao lidar com tragédias pessoais. É um assunto com o qual tristemente todos nós podemos nos relacionar, fazendo a noite tão angustiante quanto envolvente. Sea Wall de Simon Stephen conta com Sturridge (visto na Broadway em 1984 e em Orfãos) como Alex, cujo comportamento assombrado e o hábito de não finalizar suas frases indica seu estado emocional torturado. No início da história, ele está alegremente apaixonado por sua esposa e feliz com o iminente nascimento de sua filha.

Com o passar dos anos, Alex também é sortudo em ter um sogro, um soldado britânico aposentado, de quem ele verdadeiramente gosta. Então ele está ansioso para aceitar o convite para que ele, sua esposa e filha, agora com oito anos, se juntem ao velho homem para passar as férias no litoral francês.

As férias são divertidas no início, com Alex desajeitadamente tentando mergulhar pela primeira vez (“Eu era naquele momento o oposto direto matemático de Daniel Craig,” ele admite encantadoramente) e sendo mostrado a um quebra-mar que precipitadamente cai centenas de metros. “Eu não tinha ideia de que o leito do mar foi construído assim”, ele nos diz. “Eu pensei que era uma inclinação gradual.”

O quebra-mar, como talvez você possa ter imaginado, é uma metáfora para o modo como a vida pode subitamente cair sob nossos pés. Um único evento devastador acontece que claramente reduz esse entusiasmado rapaz na alma torturada que vemos a nossa frente. O escritor (Heisenberg, The Curious Incident of the Dog in the Night-Time) felizmente se priva de embelezar a simples história com toques retóricos floridos. Em um certo momento, Alex nos informa que ele está prestes a nos contar “a coisa mais cruel que eu já fiz com qualquer outra pessoa”. O fato dele parar antes de contar isso, deixando o resto para nossa imaginação, se prova muito mais poderoso do que qualquer coisa que ele pudesse dizer. Sturridge apresenta o pequeno ato de maneira tocante, transmitindo tanto o entusiasmo juvenil de um futuro pai quanto a desolação emocional de um homem destruído.

Gyllenhaal adota um estilo mais relaxado, conversador, ao mesmo tempo que utiliza completamente seu carisma de estrela de cinema em A Life, escrito por Nick Payne (cujas peças If There Is I Haven’t Found It Yet e Constellations ele também aparece). Ele interpreta Abe, que conta duas histórias simultaneamente: uma sobre seu pai sucumbindo a uma doença cardíaca, e outra sobre seu receio em se tornar pai de uma garotinha. Nada muito incomum ocorre no decorrer desses eventos, mas a história é cheia de momentos angustiantes, incluindo Abe descrevendo seu desconforto ao ajudar seu pai doente a ir ao banheiro, e sua frustração ao ouvir que os médicos interromperam o tratamento. Quando Abe pergunta se seu pai está morrendo, um médico diz para ele “Nós tentamos operar dentro de uma cultura de otimismo.” Nunca uma frase tão banal soou tão arrepiante.

O ato lida com circunstâncias mais comuns que o seu antecessor, o que de certa forma faz tudo mais tocante. O contraste entre os eventos mais alegres e mais trágicos da vida do narrador é feito de forma comovente, principalmente quando ele reflete sobre as maneiras tão diferentes em que eles ocorreram. “Eu não entendo porque nos preparamos tão maravilhosamente e elaboradamente para o nascimento e ainda assim tão terrivelmente e casualmente para a morte,” ele se queixa. As peças estão sutilmente conectadas em termos de linguagem bem como em termos de tema. Enquanto Alex quase nos contou sobre “a coisa mais cruel que eu já fiz com qualquer outra pessoa”, Abe relata sua reação quando sua esposa tenta confortá-lo lembrando-o que o pai o amava. “Eu acho que talvez seja a coisa mais amável que eu já ouvi”, ele diz.

Encenada de forma apropriadamente minimalista e poderosa dirigida por Carrie Cracknell em um palco praticamente vazio, a peça tão maravilhosamente interpretada oferece um lembrete vital de que a vida é muito fugaz.


Fonte: The Hollywood Reporter
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

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