Arquivo de Review



Enquanto a platéia começa a se sentar no Teatro Newman do Teatro Público de Nova York, o ator Tom Sturridge silenciosamente sobe ao palco, posicionando objetos pelo espaço preenchido somente por um piano e uma pequena cômoda. Ele está envolvido em pensamentos enquanto se serve do que aparenta ser cerveja e drinques, antes de manualmente ligar as luzes do teatro e começar a falar.

É um começo perfeito para uma dupla de monólogos que formam a produção Off Broadway Sea Wall/A Life, uma noite de teatro muito íntima do diretor Carrie Cracknell, que anteriormente trouxe A Doll’s House para os palcos da West End de Londres e do BAM em Brooklyn. Cracknell mantém tudo tão pequeno a ponto que passar perto de um dos atores não está tão distante assim da realidade. Sturridge (de Sweetbitter) e Jake Gyllenhaal, que mais recentemente trabalharam juntos em Velvet Buzzsaw da Netflix, estão associados com dramaturgos com quem já colaboraram várias vezes antes.

A primeira metade, Sea Wall, é a terceira colaboração de Sturridge com Simon Stephens (O Estranho Caso do Cachorro Morto). Conforme inicia sua história de partir o coração interpretando Alex, fica claro que o ator e o escritor são verdadeiramente um par perfeito. Com suas calças Adidas, Sturridge começa seu conto solo descrevendo um homem – o diálogo repleto de piadas e personificações – que se transforma em algo muito mais obscuro e profundo sobre sua própria história conforme continuamente tenta desviar do sofrimento que ele claramente está sentindo. É um equilíbrio delicado e Sturridge habilmente interpreta o luto de um homem que tenta com todas a forças evitar que o resto de si mesmo se desfaça, ou deixar que a platéia descubra o quão profunda é a sua dor, então ele continua fazendo perguntas sobre o que ele não sabe: Deus, Pi, o Quebra-Mar. A dor silenciosa de Sturridge é o oposto perfeito da energia frenética de Gyllenhaal em A Life.

A peça – escrita por Nick Payne (Constellations), com quem Gyllenhaal colaborou muitas vezes anteriormente – pega muitos dos mesmos temas abordados em Sea Wall (o questionamento da vida, o ser pai, o ser homem) e oferece uma pequena mudança neles. Ao invés de sair da luz como Sturridge, Gyllenhaal faz sua entrada na escuridão total. E enquanto Sturridge passeia pelo palco, Gyllenhaal fica na maior parte do tempo parado, utilizando somente um iPhone para fixar seu monólogo. Sua história começa com uma gravidez, uma gravidez que ele não tem certeza como se sente sobre. Ele fica alternando entre duas histórias diferentes, incapaz de as desamarrar, precisamente porque ambas criaram esse novo material do qual ele é feito. E muito como Sea Wall, A Life é repleta das intimidades de família, desde listas mundanas até músicas favoritas. Gyllenhaal é magnético e engraçado, e interpreta com nervosismo, dando uma passada em um monólogo bem reconhecível de um filme dos anos 90 que é ainda mais desolador.

Com duas ótimas performances impressionantes, no que Sea Wall/A Life se atrapalha minimamente é em amarrar concretamente as duas metades – as obras são tematicamente similares e existem pequenos fragmentos do diálogo que, se você prestar bastante atenção, conectam as duas. Mas se você não está (porque você realmente já vai estar sentindo todas as emoções neste momento), o final pode parecer meio abrupto. Em suma, no entanto, isso é uma reclamação mínima para uma tarde que irá te destruir emocionalmente, te convencer da destreza de atuação de Sturridge, e te fazer considerar mais afundo que Gyllenhaal é um dos atores mais talentosos de sua geração.

Nota: B+


Fonte: Entertainment Weekly
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

Na sessão dupla de Sea Wall/A Life no Public Theater, Tom Sturridge e Jake Gyllenhaal entregam uma performance devastadora que pode estar ao lado de qualquer coisa no palco de Nova York até agora nesta temporada. A dupla – que também está coestrelando em Velvet Buzzsaw da Netflix – talvez deva sua fama aos filmes, mas aqui eles reivindicam seu lugar no palco mais uma vez.

Nada disso será uma surpresa para quem viu Gyllenhaal em sua colaboração anterior com o dramaturgo Nick Payne (Constellations, 2015), ou para aqueles que viram Sturridge no inquietante 1984 em 2017. Mas essas performances no Public são vitais o suficiente para surpreender. Dirigido por Carrie Cracknell com uma atenção infalível aos detalhes – uma mexida de papéis ali, uma mudança de luz lá – a produção é dividida em duas partes: primeiro Sturridge em Sea Wall, seguido de Gyllenhaal em A Life, monólogos ligados apenas por tema e humor.

Em Sea Wall, Sturridge se reúne com o escritor de Punk Rock, Simon Stephens (The Curious Incident of the Dog in the Night-Time), assim como Gyllenhaal se reúne com o autor de Constellations.

Sturridge já está no palco da plataforma de tijolos enquanto o público se senta, sentado em um muro alto, bebendo uma cerveja e mexendo no que parecem ser fotos velhas. Logo ele vai nos dizer que as pessoas muitas vezes percebem um grande buraco em seu torso. Ele não parece estar falando metaforicamente, embora percebamos um vazio espiritual no momento em que ele começa a falar.

Seu personagem é Alex, um agradável britânico na faixa dos vinte anos que reconta o seu grande e eterno amor por sua esposa, por sua filha e por seu sogro que aparenta ser durão. Ele menciona um início difícil em sua vida adulta, mas que parece ter sido suavizado por um amor sem limites por sua família. Ele e sua esposa até decidiram que não queriam outra criança por temerem que fosse desviar o foco de sua garotinha perfeita.

Se nós não percebemos a tragédia até agora, esse último detalhe resolve tudo. Conforme Alex começa a contar uma história sobre uma viagem em família para uma praia no sul da França, o medo vai se formando. Apenas imaginamos como o desastre vai acontecer e como um pai conseguiu sobreviver a uma crueldade tão aleatória e destruidora.

A segunda peça é A Life, em que Abe, interpretado por Gyllenhaal, dá dois exemplos: ele conta sobre seu pai e sua filha. Mais especificamente, ele relembra a morte de seu pai e o nascimento de sua filha, alternando entre as duas histórias tão rápido e sem problemas que elas parecem estar acontecendo ao mesmo tempo. Mas não estão.

Igual ao comovente The Waverly Gallery de Kenneth Lonergan, A Life dá toda a importância necessária ao declínio de um pai que está envelhecendo, sua natureza comum sem conforto algum. “Eu amo o meu pai,” Abe fala, e então, como se fosse o primeiro a dizer essas palavras, “Meu pai está morto.”

O relato de Abe sobre o nascimento de sua filha não é menos vívido. Nosso encontro anterior com o pai de Sea Walls nos preparou para o que quer que seja, então há um certo terror em A Life, em um cenário no qual qualquer coisa pode dar errado, a qualquer minuto. Nascimento e morte, nos é mostrado, são igualmente preciosos. Eles são, simplesmente, a vida.


Fonte: Deadline
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

Perdas, tanto do inimaginável quanto de variedades tristemente rotineiras, fomentam o par de atos que tem sua estreia em Nova Iorque no Public Theater. Apresentando Jake Gyllenhaal e Tom Sturridge, Sea Wall/A Life é composta de monólogos tematicamente interligados narrados por jovens homens contando suas experiências ao lidar com tragédias pessoais. É um assunto com o qual tristemente todos nós podemos nos relacionar, fazendo a noite tão angustiante quanto envolvente. Sea Wall de Simon Stephen conta com Sturridge (visto na Broadway em 1984 e em Orfãos) como Alex, cujo comportamento assombrado e o hábito de não finalizar suas frases indica seu estado emocional torturado. No início da história, ele está alegremente apaixonado por sua esposa e feliz com o iminente nascimento de sua filha.

Com o passar dos anos, Alex também é sortudo em ter um sogro, um soldado britânico aposentado, de quem ele verdadeiramente gosta. Então ele está ansioso para aceitar o convite para que ele, sua esposa e filha, agora com oito anos, se juntem ao velho homem para passar as férias no litoral francês.

As férias são divertidas no início, com Alex desajeitadamente tentando mergulhar pela primeira vez (“Eu era naquele momento o oposto direto matemático de Daniel Craig,” ele admite encantadoramente) e sendo mostrado a um quebra-mar que precipitadamente cai centenas de metros. “Eu não tinha ideia de que o leito do mar foi construído assim”, ele nos diz. “Eu pensei que era uma inclinação gradual.”

O quebra-mar, como talvez você possa ter imaginado, é uma metáfora para o modo como a vida pode subitamente cair sob nossos pés. Um único evento devastador acontece que claramente reduz esse entusiasmado rapaz na alma torturada que vemos a nossa frente. O escritor (Heisenberg, The Curious Incident of the Dog in the Night-Time) felizmente se priva de embelezar a simples história com toques retóricos floridos. Em um certo momento, Alex nos informa que ele está prestes a nos contar “a coisa mais cruel que eu já fiz com qualquer outra pessoa”. O fato dele parar antes de contar isso, deixando o resto para nossa imaginação, se prova muito mais poderoso do que qualquer coisa que ele pudesse dizer. Sturridge apresenta o pequeno ato de maneira tocante, transmitindo tanto o entusiasmo juvenil de um futuro pai quanto a desolação emocional de um homem destruído.

Gyllenhaal adota um estilo mais relaxado, conversador, ao mesmo tempo que utiliza completamente seu carisma de estrela de cinema em A Life, escrito por Nick Payne (cujas peças If There Is I Haven’t Found It Yet e Constellations ele também aparece). Ele interpreta Abe, que conta duas histórias simultaneamente: uma sobre seu pai sucumbindo a uma doença cardíaca, e outra sobre seu receio em se tornar pai de uma garotinha. Nada muito incomum ocorre no decorrer desses eventos, mas a história é cheia de momentos angustiantes, incluindo Abe descrevendo seu desconforto ao ajudar seu pai doente a ir ao banheiro, e sua frustração ao ouvir que os médicos interromperam o tratamento. Quando Abe pergunta se seu pai está morrendo, um médico diz para ele “Nós tentamos operar dentro de uma cultura de otimismo.” Nunca uma frase tão banal soou tão arrepiante.

O ato lida com circunstâncias mais comuns que o seu antecessor, o que de certa forma faz tudo mais tocante. O contraste entre os eventos mais alegres e mais trágicos da vida do narrador é feito de forma comovente, principalmente quando ele reflete sobre as maneiras tão diferentes em que eles ocorreram. “Eu não entendo porque nos preparamos tão maravilhosamente e elaboradamente para o nascimento e ainda assim tão terrivelmente e casualmente para a morte,” ele se queixa. As peças estão sutilmente conectadas em termos de linguagem bem como em termos de tema. Enquanto Alex quase nos contou sobre “a coisa mais cruel que eu já fiz com qualquer outra pessoa”, Abe relata sua reação quando sua esposa tenta confortá-lo lembrando-o que o pai o amava. “Eu acho que talvez seja a coisa mais amável que eu já ouvi”, ele diz.

Encenada de forma apropriadamente minimalista e poderosa dirigida por Carrie Cracknell em um palco praticamente vazio, a peça tão maravilhosamente interpretada oferece um lembrete vital de que a vida é muito fugaz.


Fonte: The Hollywood Reporter
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil