Você se da conta como o jovem Jake Gyllenhaal é, quando descreve sua primeira lembrança da Calvin Klein, a marca da qual agora ele é embaixador: “Um anúncio de Marky Mark e Kate Moss, perguntei ao meu pai o que era esse pôster gigante com aquele super-humano e me respondeu ‘é Mark Wahlberg com roupa intíma'”, explica. Desde que se tornou um ator cult para os críticos e para o público em Donnie Darko com 19 anos e em Brokeback Mountain com 24, Gyllenhaal (Los Angeles, 1980) sempre transmitiu uma energia melancólica para sua idade.

O ator foi escolhido para representar Eternity Eau De Parfum, a primeira fragância da Calvin Klein criada só para homens. No comercial, Gyllenhaal vive momentos de intimidade com sua mulher e filhos, mesmo que, na vida real, reconhece que a intimidade o aterroriza. Calvin Klein descreve o homem Eternity como ‘robusto mas refinado’ e não encontrariam ninguém melhor que Gyllenhaal: um tipo que foi de férias para o Caribe para ler a biografia do segundo presidente dos Estados Unidos, John Adams, vencedor do Pulitzer, mas causou sensação na internet por suas fotos passeando sem camisa na ilha de St. Barth. Robusto, mas refinado.

Nesse verão você abriu o Instagram coincidindo com a estreia de ‘Homem-Aranha: Longe de casa’. Como foi essa transição para as redes sociais [Instagram] aos 38 anos?

Vejo o Instagram como um olhar interessante da ideia do que é a fama, como isso faz você sentir a atenção de pessoas que não conhece. Para os artistas é normal ter contato com o publico, quem te oferece uma profunda quantidade de críticas e uma profunda quantidade de elogios que provavelmente não merece nos dois casos. Mas para pessoas que não se dedicam às artes, será impressionante. No meu caso, estou nos olhos do publico desde muito jovem, estar no Instagram não é tão diferente do que conceder uma entrevista, assistir um evento ou ler uma crítica sobre o meu trabalho. Instagram é como uma extensão da minha carreira.

Por alguma razão, a internet é fascinada por fotos sua comendo e há varias contas dedicadas a postá-las. Inclusive da sua mania de morder os fones. Isso te deixa constrangido toda vez que come fora?

Essa é uma pergunta interessante, porque vivemos em uma época em que as pessoas tiram fotos de outras pessoas, dentro ou fora de estabelecimentos e nas quais as pessoas tiram muitas fotos de si mesmas. Quando as pessoas te reconhecem na rua, tem que se render a possibilidade de que podem tirar uma foto sua. Portanto não tenho insegurança sobre como eu me alimento. Eu gosto de comer fora.

Na época, você confessou que após a audição para o papel de Frodo em ‘O Senhor dos Anéis’, o diretor Peter Jackson te disse que foi a pior audição que ele tinha visto. O que você aprendeu com aquela crítica?

Já fazem 20 anos, então eu não sei o que te dizer. Sou uma pessoa muito diferente do que era naquela época. Acredito que os atores tem que aprender a crescer em um mundo cheio de rejeições, alguns aprendem a progredir e outros partem seus corações. O que aprendi ao longo desses anos é que é muito mais fácil jogar tomates, você não precisa ter talento para ser negativo, mas precisa de talento para criar algo. É muito mais difícil ser criativo do que destrutivo, então acho que só de tentar requer uma valentia incrível.

Nesse verão você participou de um filme da Marvel, seu primeiro ‘blockbuster’ em dez anos. Você ainda pensa em continuar trabalhando em filmes com baixo orçamento?

Já tenho experiência o suficiente nesse ramo para confiar no meu instinto se considero que um projeto seja adequado, mas, essencialmente, trata-se de ser autêntico. Se você sente que um projeto se encaixa com o que você é de verdade e sente que não estará enganando o publico ou os jornalistas quando chegar a hora de apresenta-lo então é algo que você deve fazer. Alguns atores dizem “sempre quis interpretar essa pessoa” e eu também era assim em um ponto da minha carreira, mas aprendi a descartar essa atitude. Claro que existem cineastas com quem eu adoraria trabalhar, como Jacques Audiard, com quem eu consegui fazer um filme ano passado [The Sisters Brothers] ou Pedro Almodóvar. Acredito que Pedro está vivo em um mundo onde muitas pessoas não estão, o considero um cineasta impressionante. Mas nunca tive sonhos como ‘oh, adoraria interpretar Abraham Lincoln’, sou mais do tipo ‘o trabalho dessa pessoa me parece incrível, tomara que eu possa colaborar com ela, aprender com ela e que ela fique com o que aprender comigo’. Por isso faço o que eu faço.

Você disse que quando alguém te parava na rua, você se oferecia para conversar, mas eles só queriam uma selfie. Começaram a falar com você desde então ou ainda querem apenas uma foto?

É que eu percebi que as pessoas se importam menos de conversarem comigo do que documentar essa conversa. É como se estivéssemos perdendo o dom de simplesmente conversar uns com os outros, as pessoas só querem uma foto e quando eu falo ‘oi, tudo bem?’ ‘qual é o seu nome?’, eles já não estão mais interessados ​​[risos]. Então não, acho que a resposta para sua pergunta é que não com muita frequência, não.

Você acha que ‘Brokeback Mountain’ não mudou a cultura, mas a cultura estava esperando por aquilo. Mas foi muito surpreendente que um filme com estrelas contasse uma historia de amor entre dois homens. Alguém te aconselhou para não aceitar o papel?

Ninguém do meu círculo, profissional ou pessoal, me aconselhou para que não fizesse esse filme. Mas teve sim alguns que me falaram que talvez não fosse uma escolha adequada ou o caminho certo para mim, porque eu tinha outras opções para escolher naquele momento. Algumas pessoas consideravam que eu deveria fazer esses outros papéis, exceto [Brokeback Mountain] e curiosamente nenhum desses outros projetos foram filmados.

Você teve dúvidas?

Para mim nunca houve dúvidas. Não sei se é por causa da minha educação e por causa do mundo em que eu cresci, tive a sorte de frequentar uma escola muito progressista onde vários dos meus professores eram gays. Nunca os questionei, via homens casados com homens e mulheres casadas com mulheres e nunca dei a menor importância. É claro que por ser um homem hétero, me intimidava a ideia de filmar as cenas mais físicas. Me perguntava como sairiam e houve momentos embaraçosos. Mas ao mesmo tempo eu sabia que estávamos contando a historia sobre amor que significava muito para mim e isso era para mim mais importante que qualquer outra coisa. Ainda é. Me aterroriza o amor, a intimidade e manter relações profundas, te falo com sinceridade, mas sou consciente de que a minha vida não vale nada sem essas conexões. Então essas são as historias que eu quero contar. E afinal, a quantidade de pessoas que se aproximaram para contar como Brokeback Mountain significaram muito para eles me fez perceber que eu não era consciente da sorte que eu tive desde pequeno. Quando li Brokeback Mountain não pensei no fato de serem dois homens porque cresci em um mundo em que o amor podia estar em todas as partes e entre todas as pessoas.

É provável que, se filmassem hoje ‘Príncipe da Pérsia’ causaria polêmica por colocar um ator branco interpretando um personagem árabe. Você pensaria duas vezes antes de aceitar um papel assim?

Bom, meu amigo, você sabe que não há resposta para essa pergunta. Você não pode voltar no tempo.

Bem, no filme você podia.

Já fiz vários filmes nos quais eu posso controlar o tempo. O que aconteceu na época já passou, graças a Deus por todas as mudanças incríveis que estão acontecendo pelo mundo. Avançamos profundamente e estamos passando por tempos contraditórios que são confusos para muitas pessoas, porque se sentem isoladas apesar de terem dispositivos para se comunicar e olhar para outras pessoas. A única coisa que posso fazer, como alguém que ajuda a contar historias, é que as pessoas se reconciliem com elas mesmas e voltem a ser elas mesmas. Esse sempre foi meu objetivo, inclusive quando eu estava viajando para frente e para trás no tempo e virando tudo de cabeça pra baixo. E é isso.


Fonte: El País
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

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