Quando o primeiro trailer para Homem-Aranha: Longe de Casa estreou na internet no início desse ano, o ator Jake Gyllenhaal roubou o show como Mysterio, o vilão que usa um capacete de aquário e faz sua estreia na mais recente parcela da franquia.

Enquanto Gyllenhaal é um nome familiar, tendo atuado em uma série de clássicos cults – de Donnie Darko a Brokeback Mountain e Okja – sua primeira tentativa no Universo Cinematográfico da Marvel provavelmente o levará ao estrelato global quando o filme for lançado nos cinemas de todo o mundo em julho.

Quando nos encontramos, Gyllenhaal tinha acabado de finalizar um período de dois meses interpretando um de seus papéis mais exigentes, em Sea Wall/A life, uma produção teatral com cenas que estavam muito longe de Homem- Aranha e suas cenas de ação e efeitos especiais.

A peça, que será reprisada esse verão na Broadway após uma temporada bem-sucedida no Public Theater, em Nova York, apresenta dois monólogos, um com Jake Gyllenhaal e o outro com Tom Sturridge. O papel exigiu que Gyllenhaal ficasse sozinho no palco por quase uma hora, discorrendo sobre questões de vida, morte e amor, e muito foco e resistência. “Eu estava com muito medo de fazer isso por muitos meses… e eu acordava no meio da noite antes de fazer o show, pensando que eu não deveria fazê-lo e que deveria cancelar, mas então eu assisti ao documentário Free Solo,” diz Gyllenhaal, que está falando no Ritz Hotel em Paris como embaixador da marca Cartier.

“É tudo sobre prática e disciplina, e ser dedicado ao que você está fazendo e como você pode chegar lá […] não importa o que seja, se você está escalando sem cordas – o que é extraordinário – ou se você está fazendo um monólogo ou tentando fazer um teste. Então eu disse, ‘Eu posso fazer isso’ e me concentrei e fiz.”

O fato de Gyllenhaal conseguir alternar com facilidade entre um blockbuster que será visto por milhões, um monólogo dramático na Broadway, e filmes independentes mostram sua versatilidade e amplo alcance.

Filho de um pai diretor e de uma mãe roteirista, Gyllenhaal cresceu na indústria cinematográfica e fez sua estreia na televisão em 1991 na comédia City Slickers, ao lado de Billy Crystal. Sua irmã mais velha, Maggie, é uma atriz de sucesso (os irmãos estrelaram juntos em Donnie Darko), e embora Gyllenhaal nunca tenha se estabelecido como ator, ele reconhece que sua família influenciou sua trajetória profissional enquanto crescia.

“Eu não estava ciente até eu ficar mais velho, mas depois eu percebi que muitas das nossas conversas eram sobre criatividade, expressão, nossos sentimentos,” ele diz. “Eu sou muito grato por isso e [durante] alguns dos momentos mais difíceis da minha família, arte e expressão nos ajudaram a lidar. Eu escolhi isso em um certo ponto, mas eu estava em uma família onde as pessoas tocavam música e eram muito criativas […]. Eu já atuei com a minha irmã uma vez e ela é a pessoa mais difícil de se trabalhar, porque ela sabe quando estou de saco cheio. Você não pode se safar com nada, então esse é o nível mais alto de ator com quem você pode trabalhar – seu irmão – porque vocês se conhecem.”

Gyllenhaal está bem ciente de que seu papel em Homem-Aranha é um grande negócio, mesmo para um ator tão bem-sucedido, mas ele é rápido em apontar que atuar em um filme independente pode ser tão gratificante quanto participar de uma grande produção.

“Eu realmente achei que trabalhar em um filme da Marvel e em um filme do Homem-Aranha é uma aventura completamente nova da qual eu nunca tinha feito parte – estar em algo tão grande que você é uma pequena parte de algo […] porque não é apenas um filme, mas o universo inteiro, e o personagem que você está interpretando se encaixa nele”, diz ele.

“Trabalhando em filmes pequenos você se acostuma com aquela intimidade, mas o que eu descobri com Homem-Aranha é que John Watts, o diretor, está muito acostumado a encontrar momentos reais mesmo nessas grandes produções, e ele gasta tempo fazendo isso – é o que faz o filme ótimo.” Filmes da Marvel, como a saga dos Vingadores, permitem que atores sejam vistos por públicos que antes estavam fora de alcance. O mesmo vale para os serviços de streaming, como a Netflix, que se tornaram as plataformas padrão para os jovens espectadores consumirem entretenimento. Gyllenhaal, que desempenhou o papel principal em Velvet Buzzsaw (2019), uma paródia sobre o mundo da arte produzido pela Netflix, acolhe a empresa de streaming como uma nova maneira de os contadores de histórias se comunicarem com um público ainda maior.

“Isso diz algo sobre a minha confiança, e, potencialmente, minha estupidez, que acho que tudo que eu faço vai ser visto em todo o mundo,” diz Gyllenhaal. “Eu fiz filmes minúsculos que encontraram um caminho de chegar em todo o mundo, o que é um pouco alucinante porque você atua nessa coisa pequena e pensa que ninguém vai ver.”

“Com Homem-Aranha é obviamente diferente, mas eu não penso nisso quando estou trabalhando. Eu acho realmente divertido que você esteja se comunicando em um idioma internacional, que você não está dialogando apenas com sua própria cultura e em seu próprio idioma, e que você está falando em um nível diferente. E como ator, é maravilhoso e shakespeariano ser capaz de traduzir sua expressão para todos ao redor do mundo, e é divertido interpretar um papel onde você está pensando que os sentimentos que você mostra têm que ser verdadeiros porque a única coisa que conecta todos nós é quando sentimos que alguém está sendo honesto, não importa de que cultura eles são.”

Apesar de Gyllenhaal não falar muito sobre isso, ele tem sido um seguidor do Budismo e de religiões orientais desde seus tempos de faculdade na Universidade de Columbia.

“Eu estava procurando por um escape para a criatividade, e particularmente a religião oriental e o pensamento oriental, e a ideia do budismo e a cultura tibetana me pareceram interessantes”, diz ele. Ele é particularmente fascinado com a forma como a cultura tibetana, com seu próprio líder espiritual, foi capaz de cruzar as montanhas do que era então “um dos países militaristas mais dominadores do mundo”; – China – para “um país completamente espiritual” – Índia.

“Eu não sou um budista de carteirinha e eu não me considero assim, mas eu carrego isso comigo em muitas coisas e, filosoficamente e culturalmente, eu acho que há algo na cultura asiática e na ideia de artesanato e disciplina, e a importância da hierarquia ou de onde você começa, e de quem você aprende, e aquelas coisas que são a estrutura da cultura.”

“É algo que eu adoro e sinto que está sumindo um pouco nos EUA, onde é mais sobre quem eu posso conseguir para chegar em um lugar mais fácil em oposição ao que eu posso aprender; como eu posso dominar algo para chegar a outro lugar. Eu gosto de pensar sobre o Tibete e a espiritualidade; isso foi provavelmente parte disso para mim.”

Suas opiniões sobre o Tibete à parte, Gyllenhaal nunca foi abertamente político. Seus papéis no cinema – desde seu papel gay pioneiro em Brokeback Mountain em 2005 até seu papel mais recente como vítima de um atentado terrorista em Stronger (2017) – ajudaram a explicar um pouco sobre os seus ideais.

“Eu cresci em uma família muito aberta onde as pessoas falavam o que pensavam e eu conhecia pessoas de culturas muito diferentes, e minha mãe era uma feminista muito forte em muitos aspectos desde quando ela estava no ensino médio e durante toda a faculdade e em seu trabalho também,” diz Gyllenhaal. “Ela foi uma grande influência para a minha irmã nesse sentido, e indiretamente as duas são para mim.”

Gyllenhaal diz que não tem medo de expressar suas convicções, mas: “Há outras pessoas que falam mais articuladamente do que eu, mas minha maneira de falar é através do meu trabalho, através da atuação, através dos filmes que escolho, dos artistas que eu apoio, as pessoas que eu apoio – mesmo que seja indiretamente. Eu acho que se você olhar de perto quem eu sou, você pode descobrir no que eu acredito.”


Fonte: South China Morning Post
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

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