Jake Gyllenhaal é pontual para o compromisso, ligando de sua casa em Nova York. Conforme seu pedido específico, ele gentilmente, mas com firmeza, se recusa a descrever seu apartamento em detalhes. “Só vou te dizer que tem muita madeira e várias cadeiras confortáveis. É um daqueles apartamentos onde você quer se aconchegar sozinho, talvez quando estiver com febre alta. Mas em geral não é algo que eu goste de falar”, ele diz, enfatizando ainda mais sua posição bem conhecida se tratando de privacidade. Ele é conhecido por deixar entrevistas quando os jornalistas se tornam muito agressivos ao perguntar sobre seus gostos ou interesses amorosos anteriores. Aos 38 anos, ele tem uma visão do mundo que é séria e firme. Ele tem ideias fortes e nobres (os Gyllenhaals descendem de uma família de aristocratas suecos) sobre masculinidade: “Eu acho que ser um homem significa, em primeiro lugar, ter um coração aberto, mas, ao mesmo tempo, uma mente forte para protegê-lo.” Em Nova York, as colunas de fofoca falam sobre seu apartamento ser repleto de fotografias gigantes de si mesmo. Isso começou com o New York Post’s Page Six, mas ele desmente isso com uma gargalhada. “Eu gosto de colocar cartazes dos meus filmes. Isso é verdade. O resto é ridículo.” Essa galeria de filmes importantes inclui Donnie Darko, Brokeback Mountain, Zodíaco e Nightcrawler. Em seu filme mais recente, o vemos assumir o papel de Mysterio no novo Homem-Aranha: Longe de Casa, o qual estreia na Itália no dia 10 de julho. Pode-se imaginar seu apartamento como sendo um clube de homens cheio de conversas e fumaça de charuto. Gyllenhaal realmente fumou charutos por um tempo, mas sem muita convicção. “Eu era bom em me fazer de fumante, com pensamentos profundos e filosóficos, e até comprei um umidificador profissional que eu nunca usei. Eu também experimentei cachimbos por um tempo, mas no final percebi que prefiro não fumar.” Isso também porque ele corre cerca de 16km algumas vezes na semana, com sapatos de sola fina que dão a impressão de estar correndo descalço. Ele aprendeu sobre esse estilo de corrida dos atletas naturais na tribo Tarahumara no México: “‘Born to Run’, que conta a história deles e a sua cultura de corrida, é um dos meus livros favoritos”. Ele então discute vários exemplos de como ele tem tentado manter sua própria vida simples, buscando achar um equilíbrio entre estrutura e superestrutura.

Por exemplo, ele vendeu sua motocicleta por praticamente o mesmo motivo que abandonou Havanas e Montecristos. “A motocicleta te faz ter uma ‘pose’, e eu já tenho que posar para o meu trabalho. Eu não queria que isso também fizesse parte da minha vida.” No geral, ele não se considera superfã ou um especialista em nada, além do comportamento humano, o qual ele observa com constante curiosidade. “Eu saí com um caderno Moleskine na mão por um tempo e fiz anotações como uma maneira de parecer concentrado e legal. Então eu tentei memos de voz, que eu tinha visto amigos músicos usarem.” No final, ele percebeu que sua memória era a melhor maneira de “cortar e colar” mentalmente, uma ideia que ele obteve dos ensinamentos de alguns dos melhores gurus de Hollywood. “Se você está aberto e em um espaço criativo, tudo o que você internaliza vem à tona nos momentos em que você precisa. Estes são os ensinamentos de David Lynch e seu livro Catching the Big Fish. Você precisa prestar atenção às coisas que nos conectam com os outros, através da experiência e da inspiração. Esse é o segredo da conexão entre criatividade e meditação, pelo menos da maneira que eu enxergo.”

Esse estado mental perceptivo é algo que Gyllenhaal cultivou ao longo dos anos e que funciona bem com sua natureza desapegada que ele atribui à sua miopia extrema. Desde que ele era criança, isso o manteve separado do mundo, que ele via através de uma lente incrivelmente fora de foco. “Sem lentes de contato, sou praticamente cego. É daí que vem o mistério da minha visão estranha das coisas.”

Ainda hoje, ele usa pequenos truques para se privar ou se livrar das pessoas, como se oferecer para lavar a louça depois dos jantares. “É uma coisa antissocial interessante de se fazer. Você pode evitar conversas chatas e ter certeza de que as pessoas realmente interessadas em você vão procurá-lo na cozinha para conversar.”

Como filho do diretor Stephen Gyllenhaal e da roteirista Naomi Foner (assim como o irmão mais novo de Maggie Gyllenhaal e cunhado do ator Peter Sarsgaard), ele cresceu entre os mais importantes de Los Angeles. Ele amava musicais quando criança, e aos 11 anos já estava no set de A Dangerous Woman dirigido por seu pai. Steven Soderbergh vivia em um apartamento acima da garagem da família antes dele se tornar famoso. Quando Gyllenhaal foi batizado, Paul Newman foi escolhido como seu padrinho e Jamie Lee Curtis como sua madrinha. E até seus pais se separarem quando ele tinha 30 anos, ele não tinha conhecido muita dor em sua vida. Mas essa existência um tanto fácil não foi desperdiçada na frivolidade; ele é teimosamente auto reflexivo para isso.

“Não há erros na vida”, ele diz a si mesmo repetidamente. Isso não apenas resume a filosofia de Gyllenhaal, mas também é típico da maneira um tanto abstrata em que sua mente funciona. Ele aparenta não ter nenhum problema de controle. Ele está confortável com sua vida e diz que tomou algumas decisões com cuidado e outras sem nem pensar, mas seguiu com elas do mesmo jeito. Ele fala de um grupo bastante estável de amigos, pessoas que gostam de conversas sérias e de se reunir nas noites de domingo para jantares e discursos: política, meio ambiente, assuntos atuais, arte. Uma seleção de nova-iorquinos instruídos de classe alta, de quem ele leva material para seu trabalho: o crítico de culinária, o chef, o advogado constitucional, o ativista ambiental e, alguém realmente importante para ele, a música Jeanine Tesori, uma das mais aclamadas compositoras da Broadway. Jake a descreve como “uma mulher incrível que teve e continua a ter um grande impacto na minha vida.”

Ele fez amizade com Jaime FitzSimons, um xerife do Colorado que trabalhou como consultor policial para Hollywood. Eles trabalharam em filmes juntos, incluindo End of Watch e Prisoners. Esse cowboy o protegeu de um ataque não-provocado por um cara bêbado fora de um restaurante. “Eu não faço ideia do porquê ele queria me bater, talvez para ter uma boa história para contar para seus amigos. Mas a moral da história é que é legal ter um policial como amigo quando alguém quer te machucar.”

Para se preparar para End of Watch, ele andou por umas das piores partes de Los Angeles no banco de trás de um carro da polícia. Ele viu um homem morto durante uma parada de drogas, baleado por um oficial bem diante de seus olhos, e isso é algo que o afetou muito. “Foi um alerta, me fazendo perceber que existência privilegiada eu tive até então.” Recentemente, ele se aproximou do Jeff Bauman, que sobreviveu ao bombardeio durante a Maratona de Boston em 15 de abril de 2013. Ele perdeu as pernas. Gyllenhaal interpretou Bauman no filme Stronger.

O diretor Sam Mendes disse que o “Jake é um homem, um artista, com uma alma que é acessível.” Ao escutar essas palavras, Gyllenhaal respira e as descarta. “Ai meu Deus. Isso não é verdade. Eu não sou nada disso.” Na verdade, a imagem primordial dele é a de um homem que ainda é parcialmente um mistério, que prefere olhar mais para dentro do que pra fora. “Isso é verdade. Eu sou assim. Eu explorei mais o mundo criando meus personagens do que na vida real. Esse é um espaço Shakespeareano protegido, onde eu sempre me senti mais seguro.”


Fonte: Vogue Itália
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

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