Quando a produção de O Abutre, estreia como diretor do roteirista Dan Gilroy junto com Jake Gyllenhaal em sua fase de coque samurai, acabou em 2014, o cineasta virou para sua estrela e disse, “Nós não acabamos ainda.” Eles tinham outras histórias para contar.

Mais de três anos depois, a dupla se reuniu com a atriz Rene Russo e com o diretor de fotografia Robert Elswit em Velvet Buzzsaw, trocando a atmosfera obscura e sombria dos caçadores noturnos de ambulância pelos campos chiques da cena da arte contemporânea de Los Angeles. É um mundo em que ex artistas punks investiram na máquina capitalista e se tornaram ilustres donos de galerias (como Rhodora Haze interpretada por Russo) e críticos que exalam falas dramáticas como, “A crítica é tão limitadora e emocionalmente exaustiva” (Como o sofisticado Morf Vandewalt de Jake Gyllenhaal).

Todos aparentam ser moralmente comprometidos e procurando fazer dinheiro – mesmo que esse dinheiro venha da venda de quadros demoníacos que matam pessoas. Pense como se “Moça Com o Brinco de Pérola” pudesse saltar da moldura e te estrangular com o xale ou se uma peça do Bansky retalhasse os espectadores ao invés de a si mesmo. “Eu não conseguiria viver com arte porque ela é tão poderosa,” disse Russo, em conversa com a EW no telefone duas semanas antes da grande estreia do filme no Sundance.

É um conceito, de acordo com ela, que brinca com a ideia de que “se os artistas pudessem se vingar,” quer isso seja contra o sistema esmagador de almas e esfomeado por dinheiro que cerca a maioria das formas de arte ou contra os críticos alegremente destruindo o trabalho de uma vida de alguém. Com uma risada divertida, Russo diz, “Isso poderia ser divertido!”

Gyllenhaal menciona como o “processo criativo do Dan Gilroy é bem privado,” mas ele sabia que o cineasta, novamente, escreveu os papéis principais especificamente para suas estrelas de O Abutre. Russo, que está casada com Gilroy por aproximadamente 27 anos, diz que ela normalmente lê os roteiros dele enquanto ele os escreve. Mas não o de Velvet Buzzsaw. “Dessa vez ele só me deu quando estava pronto, e eu pensei que era maluquice porque ele é assim. Dany é uma viagem.”

Bem antes da estreia de Roman J. Israel, Esq. de Gilroy, seu segundo filme, o ex-morador da Costa Leste fez uma viagem até o museu Dia:Beacon no interior de Nova York. (Aceite as palavras de Russo sobre – “É um lugar bizarro.”) Essa excursão cultural o ajudou a formar a estrutura geral de Velvet Buzzsaw: um artista recluso morre em seu apartamento, deixando para trás uma carreira inteira de arte. Apesar de seus desejos de queimar as peças, a assistente de Rhodora, Josephina (Zawe Ashton de Animais Noturnos) dá um golpe e as vende para sua clientela de elite – sem saber que os demônios pessoais do artistas estão meio que literalmente ligadas às pinturas.

“Nós queríamos construir um mundo acreditável, habitado por personagens acreditáveis, lidando com eventos inacreditáveis,” Gilroy explica. “Depois olhamos, vendo os diversos tons, de O bebê de Rosemary e O Exorcista, e ficamos intrigados com a ideia, de estabelecer um tom no começo com coisas que são críveis e acreditáveis, depois quando o inacreditável começa a acontecer ele se torna mais poderoso” – como quando uma exibição esférica cara vai de uma experiência sensual a uma armadilha de morte.

Como a arte em si, por detrás da tinta do roteiro está uma camada da fundação baseada nas dificuldades “bastante pessoais” de Gilroy com Hollywood.

Ele menciona especificamente a vez que tentou fazer Superman Lives nos anos 90. Nicolas Cage era cotado para interpretar o Homem de Aço para o diretor Tim Burton, mas a Warner Bros. deu fim ao processo duas semanas antes do início das filmagens “porque o orçamento estava muito salgado.” Esse era o maior medo de Gilroy se tornando realidade. Abalado, se dirigiu até a praia de Santa Monica onde lamentou o equivalente a um ano e meio de histórias que nunca seriam ouvidas.

“De repente eu pensei ‘Não importa. Eu estou criando algo tanto para mim quanto para outras pessoas e eu trabalhei com pessoas que apreciaram e viram o que eu fiz e eu tive a chance de criar,’” lembra Gilroy. “Eu jurei a mim mesmo que um dos preceitos que eu iria seguir era que não importava, no final, o número de pessoas que assistiram ou o nível de sucesso comercial. [Arte é] algo que crio para mim mesmo. Eu preciso criar algo que é relevante para mim e que carrega alguma visão de mundo que as pessoas possam se identificar com.” (Uma cena de Velvet Buzzsaw com John Malkovich é tirada diretamente dessa experiência.)

Quando ele havia terminado Roman J. Israel, o diretor tinha um roteiro na mão de suas estrelas. “Ele notoriamente não manda nada a mim. Ele entrega pessoalmente,” diz Gyllenhaal. “Ele me deu uma cópia capa dura, uma cópia linda encadernada de Velvet Buzzsaw e eu a li assim que eu abri a embalagem.”

Após interpretar um psicopata que documenta cenas de crime para as agências do noticiário local, Gyllenhaal ficou envolvido com o personagem de Morf. Como o nome sugere, “ele está morfando o tempo todo – sua identidade, suas opiniões, sua atração,” o ator explica. O crítico de arte sexualmente fluído, que acaba envolvido com uma mulher após seu término com um homem, menciona à Josephina, “Nós temos um relacionamento de gostos.”

Enquanto Gyllenhaal “nunca mudou uma palavra do que estava escrito,” Gilroy diz que “a história por trás, o olhar, cada traço do personagem foi algo que o Jake inventou sozinho.” Assim como foi decisão de Gyllenhaal ter um coque samurai em O Abutre, seu corte de cabelo no estilo “Romano” em Velvet Buzzsaw foi parcialmente ideia do ator enquanto ele e Gilroy “estavam morrendo histericamente” discutindo sobre no banheiro. Os óculos vieram do artista de maquiagem do filme Donald Mowat (“Esses são óculos dele,” Gyllenhaal exclamou) e a fisicalidade veio, em partes, de Marlon Brando depois que Gilroy exibiu um clipe do protagonista de O Poderoso Chefão no The Ed Sullivan Show.

“Brando é alguém que obviamente foi sexualizado e era fascinante como resultado disso,” diz Gyllenhaal. “E desde então descobrimos muito sobre sua própria identidade e ele está desafiando limites em todos os lugares, e mesmo assim ele é uma das nossas [mais tradicionais] estrelas masculinas clássicas e então acho que olhamos para o Morf desse jeito.”

Russo, admitidamente, não está procurando sua próxima performance. “Se fosse como eu quero, eu andaria pelo meu jardim, eu limparia meu armário, eu leria, eu assistiria documentários,” a estrela de filmes como Garra de Campeões e Thomas Crown – A Arte do Crime diz. “Eu não trabalharia de maneira alguma. É estressante. E eu odeio me levantar de manhã!” (À isso nós dizemos, “Amém!”). Mas com Gilroy a alimentando com roteiros, ela encontra oportunidades raras.

“Eu tive uma ótima carreira, não me entenda errado,” ela esclarece. “Tem sido maravilhoso, e eu não posso reclamar, mas também não posso dizer que sinto que não tivesse tido personagens o suficiente que eu poderia me doar. E daí, do nada, quando você menos espera, a vida só deixa um presente no seu colo.”

Rhodora, para ela, foi “uma viagem.” Russo elabora, “A Rhodora não é fácil e eu realmente tenho que pensar sobre isso porque pra mim ela foi uma pessoa complexa. Eu tenho um ditado no meu quadro aqui [na casa na Califórnia dela] que diz ‘Seja gentil já que todos que você conhece estão enfrentando uma batalha’… Eu sempre penso assim: Qual é a batalha dessa pessoa? A batalha da Rhodora vem do passado dela como artista anarquista, por isso as tatuagens que espiam das elegantes vestimentas aprovadas por Anna Wintour. Agora, sua preocupação está em vender o maior número daquelas pinturas demoníacas que conseguir. Não importa que corpos estejam se acumulando. Como um dos amigos que estão na indústria dizem, ‘É um grande sucesso.’

A nova história parece uma continuação espiritual do que Gilroy explorou em O Abutre – (palavras de quem está escrevendo, não do Gilroy) – já que sua excursão como iniciante desenvolveu o conflito entre o jornalismo antiético e a demanda do consumidor por notícias tenebrosas disfarçadas de entretenimento.

“Em Velvet Buzzsaw, quero explorar a relação entre arte e comércio nos dias de hoje… e é uma relação desconfortável em múltiplas áreas do entretenimento,” diz Gilroy. “Eu sinto que a qualidade de um trabalho não deveria ser julgada pelo volume de interações nas mídias sociais ou o número de visualizações ou cliques recebidos ou pela quantia que se foi paga por ele. Isso não significa que o sucesso comercial diminui um trabalho; porque não diminui, mas eu acredito que não o define também.”

O diretor adiciona como pensamento final: “Estou dizendo em Velvet Buzzsaw que a arte é mais do que uma mercadoria e não nos esqueçamos disso.” Se pelo menos seus personagens percebessem isso antes de vender a próxima obra de arte assassina.

Velvet Buzzsaw teve sua estreia na Netflix na sexta-feira.


Fonte: Entertainment Weekly
Tradução & Adaptação: Equipe Jake Gyllenhaal Brasil

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