Jake Gyllenhaal não conseguiu uma indicação ao Globo de Ouro pela sua performance em “Stronger”, no qual ele interpreta Jeff Bauman, o verdadeiro jovem que perdeu metade da parte inferior de suas pernas na explosão da bomba na Maratona de Boston.

Mas o ator ainda está na disputa pra uma indicação ao Oscar (2018). Em vez de traçar o familiar arco da jornada do herói, o filme examina a ambivalência de Bauman sobre ser enaltecido ruidosamente como um patriota depois da atrocidade.

Gyllenhaal, de 37 anos, disse que ele e Bauman, que completou 31 anos neste mês, ficaram extremamente próximos no decorrer do filme. Ele tem uma luz, disse Gyllenhaal durante uma conversa comigo no ano passado em seu escritório da sua produtora no SoHo, que contava com uma grande quantidade de biscoitos de chocolate viciantes e a presença amável do pastor alemão de Gyllenhaal, Leo (*). Aqui estão trechos editados da entrevista.

“Patriot’s Day” foi outro filme sobre o atentado de Boston, e foi feito na mesma época que “Stronger”. Mas era mais sobre pegar os terroristas, e o seu está questionando a ideia de que apenas sobreviver a isso automaticamente faz de você um herói. Você se preocupou que os filmes tivessem muitas coincidências?

Todos nós nos concentramos no espetáculo de um evento horrível e também nas pessoas que cometeram um crime. E sobre como ser feita a justiça. Há algo sobre Jeff e sua história que não era sobre a ideia convencional do triunfo da força de vontade do ser humano; foi sobre a luta com essa ideia pela qual fiquei fascinado Nós todos vivemos em um mundo onde a coragem é o que desejamos. Isso não foi o que realmente aconteceu. Todos os problemas dele ainda existem. Eu acredito em mudanças – tenho uma esperança profunda nisso. Mas eu não acho que podemos descartar nossas
complicações por isso.

O que você quer dizer com “mudança” neste caso?

Jeff agora é pai, e ele não acreditava que pudesse fazer isso. Ele está sóbrio há 15 meses, após o término do filme. Ele mudou exponencialmente nos últimos 15 meses. Mais do que qualquer um que eu conheça. Mas isso não aconteceu sem ele lutar. Não é como ‘Oh, eu tive meus problemas com álcool e, de repente, eles sumiram’. Às vezes,
os filmes pintam coisas assim, e acho que algumas dessas coisas são mentirosas.

A aparência física é incrível. Seu cabelo ficou realmente enrolado. Você fez
permanente?

Isso, fiz permantente, sim.

Eu não sabia que isso seria mesmo possível você fazer.

Sim. Foi um leve permanente, porque não queríamos que fosse muito encaracolado. Quando você vê o cabelo de Jeff, sabe, é uma característica distinta. O cabelo dele é muito específico. Então Donald Mowat, – ele é um incrível maquiador – disse: ‘Eu acho que para ter o tipo de cabelo bagunçado que Jeff tem, nós deveríamos fazer um
permanente.’ E eu fiquei, tipo,’eu estou sempre disposto a fazer um permanente, sabe?’

Quantos permanentes você já fez? Foi difícil quimicamente?

Foi meu primeiro. E, sim, foi fedorento.

Quando eu falei sobre aparência física, obviamente eu quis dizer sobre o fato de que você teve que carregar todo o seu corpo com os braços e fingir que não tinha pernas. Como você se prepara para algo assim?

Passei quase um ano com Jeff antes de começarmos a filmar. Na primeira semana em que eu o conheci, todos nós da equipe nos encontramos, e fomos jantar na sala de banquetes [de um hotel]. Jeff tirou as pernas de “Genium Ottobock” e me mostrou como as vestia, tirava e como andava pela sala. E esse foi o primeiro momento em que o vi
percorrer um espaço sem as pernas biônicas. E então por mais de um ano eu o vi fazer isso repetidamente. Quando ele sentava no chão, eu sentava com ele, e tinha uma perspectiva e uma diferenciação de altura que era uma espécie de infantilização. As pessoas acabam falando com você e te tratam de maneira diferente, sem saber como interagir. Também uma das ajudas foi do New York Times que fez uma exposição de fotos ganhadora do Prêmio Pulitzer sobre ele. E eu perguntei a Jeff se havia alguns outtakes. Isso foi durante o período em que ele estava totalmente perdido de verdade. Foi apenas um mês depois do evento. Tudo estava cru. É palpável, seus sentimentos e seus olhos, e a experiência do que estava acontecendo. Para mim, observar esse comportamento, foi uma mina de ouro.

Você já tinha passado tanto tempo assim estudando sobre um assunto (ou pessoa)?

Apenas uma vez antes, com vários policiais quando eu estava fazendo o “End of Watch”. Um dos policiais é ainda um dos meus amigos mais próximos. Mas nada se compara a isso. Eu sinto que é muito mais do que um filme agora. Porque [Jeff é] meu amigo, e porque todas as pessoas ao seu redor que eu conheci, e eu as amo agora. Quando você está com ele, qualquer coisa que você possa reclamar normalmente acaba parecendo muito ínfima e pequena. É assim que ele faz você se sentir. É o espírito dele. Ele tem uma luz.

*Nota da tradutora: Na entrevista original do site o entrevistador se refere ao cão de Jake como sendo o Atticus, foi corrigido para Leo, pois Atticus já é falecido e Leo é seu atual cachorro de estimação em 2018.

Fonte: NY Times
Tradução & Adaptação: Dri Cobo | Equipe Jake Gyllenhaal Brasil
Não retirar sem os créditos!

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